sexta-feira, maio 09, 2008

Há males que vêm por bem?

Myanmar...
Nas nossas mentes há bem pouco tempo. A revolta dos monges. O esmagar militar. O País fechado de novo. Agora, vem a Natureza, e de forma avassaladora, mostra a sua força. Como sempre, e infelizmente, os números são assustadores. Números piores que os do Tsunami no Natal de 2004... 500.000 mortes... As estatísticas dizem que após uma catástrofe desta natureza, e sem auxílio humanitário, as mortes tendem a aumentar exponencialmente devido a causas sanitárias. O País está fechado. Não se quer abrir ao auxílio. Não quer dar a conhecer as condições em que vive, de facto, o seu povo. As fotos de satélite que ilustram este texto, mostram a área do Delta de Irrawaddy, no antes e no depois. A destruição para além de extensa, ficará para durar.
5 dias depois da tragédia a Junta Militar ainda negava Vistos de entrada a entidades de auxilio humanitário. Incompreensível. Há países que também têm esta posição volta e meia, como por exemplo a Índia. Mas neste caso é perfeitamente compreensível.
Quer a China quer a Rússia já tentaram aproximar-se da ONU para tornar o auxílio coercivo em casos de questões humanitárias... Poderá ser uma questão do calor do momento, mas eu não penso que faça qualquer sentido... Seria uma grave ingerência na soberania dos países. Mas e a questão humanitária? A França argumenta que a ONU já tem esse poder desde 2005. Em todo o caso, muita da imprensa mundial, como salientava o Sena Santos, está a olhar para esta tragédia como um mal terrível, mas que trará um enorme bem para o país... É este o preço a pagar pela liberdade?

19 comentários:

Nélson Faria disse...

É, para mim, a grande discussão do século XXI do Direito Internacional Público: até onde a soberania dos estados é inviolável numa comunidade mundial de direitos?

Haverá uma bolha em torno dos estados verdadeiramente impenetrável? Resposta à Marcelo versão Gato Fedorento: Penso que não, mas acho que sim ;)

Paulo Colaço disse...

Pode parecer ingénua a pergunta, mas como pode este desastre derrubar o regime?

jfd disse...

Né sabia que te era caro este assunto ;) E qual é a tua opinião?
Eu realmente não tenho muito conhecimento para poder responder, para além da opinião que expresso...

Colaço, penso que não derrubar, mas abalar. A partir do momento em que se abre a caixa de Pandora; ver realmente o que por lá se passa, então poderá não se voltar atrás! Será assim?

Paulo Colaço disse...

Alguém te ouça, Jorge.
Pessoalmente, acho que não é com abanões que aquilo muda.

jfd disse...

BANGKOK, Thailand (CNN) -- A top United Nations official says he is "furious" over the Myanmar's government's refusal to allow the organization to distribute aid flown in for cyclone disaster victims

Isto é inexplicável..........
Onde está Bush? Onde estão a China e a Russia? A Austrália? Inglaterra? Alemanha? India?
http://edition.cnn.com/2008/WORLD/asiapcf/05/09/myanmar/index.html

Nélson Faria disse...

Recomendo a todos que subscrevam o International Herald Tribune para estarem informados do que se passa no mundo.

Terça-feira, dia 6 de Maio de 2008:

The United States has made an initial aid contribution but we want to do a lot more," Bush said in the Oval Office.

"We're prepared to move U.S. Navy assets to help find those who have lost their lives, to help find the missing, to help stabilize the situation.

But in order to do so, the military junta must allow our disaster assessment teams into the country."


http://www.iht.com/articles/ap/2008/05/06/america/NA-GEN-US-Myanmar.php

Paulo Colaço disse...

Onde está o Bush?
Oh JFD, não podemos criticar os EUA por ser acharem os polícias do Mundo e no dia seguinte criticarmos porque não fizeram a "ronda" na nossa rua...

jfd disse...

Compreendo!
Pressão diplomática. Convencer a Junta a ceder... É dever de todos nós.

jfd disse...

http://www.wfp.org/english/

Anónimo disse...

se o que está em causa é a assistência a pessoas em risco não há paredes de soberania. concordo com o que ouvi do sena santos, algo cuja ideia é pior infâmia que a atitude dos generais é a passividade dos líderes mundiais.
FILIPA VENDRELL

jfd disse...

Exactamente Filipa!
Bem vinda aos comentários! Volte sempre. É bom partilhar opiniões com outra ouvinte da verão podcast do Sena Santos.

Cidalia disse...

JFD, a Birmânia ou Myanmar como agora se chama tem petróleo, diamantes, armas, cereais ou é importante estratégicamente?

Se não, então porque hão-de os EUA, a China, a Rússia etc etc resolver o problema deles? E depois pagam com quê?

Paulo Colaço a dualidade de critérios, duma maneira geral, não é boa, mas quando se trata de salvar vidas humanas (muitas vidas humanas)e impedir que doenças e outras calamidades se espalhem pelo mundo, não devemos exigir que todos os paises ajudem?

Com os EUA até podemos virar o fato do avesso e arranjar nova formulação:
"Se arranjaram uma pátria aos Israelitas, se impediram a invasão do Koweite, se atacaram e acabaram com a ditadura no Iraque, se invadiram o afeganistão para acabar com aqueles malvados, porque não se impõem agora aos Birmaneses?

Paulo Colaço disse...

Olá Cidália,
De facto a dualidade de critérios não é boa.
A mim não me podem acusar de ser um “americanófilo”: não sou fã da política externa dos EUA, na sua generalidade.
Mas temos de saber em que ficamos: ou lhes reconhecemos um excepcional “direito de ingerência” ou reconhecemos que, como qualquer Estado, só age quando os seus interesses nacionais estiverem em jogo.
Portugal é estandarte dos Direitos Humanos, mas não critica a China.
Somos aliados dos EUA, mas temos negócios com o senhor Chavez.

Lembro-me bem que em Portugal as vozes que diziam “abaixo os EUA por terem ido à ex-Jugoslávia” eram as mesmas que diziam “abaixo os EUA por demorarem tanto tempo a decidirem se nos ajudam em Timor”.
Aqui também há dualidade de critérios.

Os Estados movem-se pelos seus interesses. Não podemos dizer, como fazem uns, que é errado ir para o Kosovo e depois perguntar: “então não vão para a Birmânia?”.

Ou, não vão a lado nenhum e tem de ser SEMPRE a ONU a agir (é preciso reformular a instituição) ou permitimos que vão a todo o lado, sem um “piu” da nossa parte.

E, já agora, permitam-me que diga: “para a Birmânia, e em força”

EM disse...

Para mim, não há discussão possível nesta matéria. Não considero que seja uma ingerência entrar em força e auxiliar os birmaneses a salvarem a sua vida. Tudo o resto é paleio que entretêm políticos e diplomáticos. Que hipótese teria a junta militar se houve uma operação semelhante à "Tempestade no Deserto"? Qual o impacto que o mundo teria se houvesse menos meio milhão de pessoas naquela parte do mundo? As questões são tão simples como estas, mas estou em crer que se criam deliberadamente complexidades para justificar a inacção neste tipo de situações.

jfd disse...

Caro EM,
Penso eu que, as coisas não podem nunca ser colocadas em planos e cenários tão simplistas...
Que provavel resposta teria num destes cenários, a sua pergunta ;

Qual o impacto que o mundo teria se houvesse menos meio milhão de pessoas naquela parte do mundo?

EM disse...

Se as relações internacionais e os factores económicos sairem fora da equação, a decisão é muito simples. É ir lá, tomar conta do Estado, auxiliar a população e salvar milhares de vidas.

CNN in Myanmar

jfd disse...

Este assunto está cada vez pior.
A China insiste em não deixar que o Conselho de Segurança da ONU se meta em assuntos do seu "protectorado".
A Junta Militar, até dentro do país, insiste em canalizar a ajuda aos sinistrados. A ajuda exterior continua sem conseguir penetrar o país. Os sobreviventes brevemente morrerão de cólera, diarreias ou enfermidades facilmente combatíveis...

É o mundo que se juntou para combater as vítimas do Tsunami, e o mundo que vê como a China se abre, em ano de J.O., à ajuda externa, que vê este regime militar deixar os seus morrer, em prol da manutenção do mesmo...

Que vergonha!

Paulo Colaço disse...

Isto leva-nos a várias reflexões.
Uma delas é a da reforma da ONU.

jfd disse...

E que penso casar perfeitamente com o tópico lançado no primeiro comentário do Né.

Até me atreveria ao desafio de um futuro psicodebate com o mote do Né:
Até onde a soberania dos estados é inviolável numa comunidade mundial de direitos?