quarta-feira, julho 16, 2008

Questão Nuclear

Vítor Constâncio defendeu, ontem, na Assembleia da República, a necessidade de se estudar e debater a questão da Energia Nuclear em Portugal.

Hoje, Oliveira Fernandes, presidente do Conselho de Administração da Agência de Energia do Porto, diz que tal debate é "inoportuno" levantar"a discussão quando não existe documento para discutir e porque este Governo disse que a energia nuclear não seria tema a debater neste mandato. É desviante e alienante em relação à abordagem dos problemas da sociedade."

O tema já foi falado no passado, abordado por alguns e sugerido por outros.

Nos dias que correm a factura energética a pagar por Portugal é extremamente elevada, muito por culpa da dependência energética, em termos de matérias-primas, que o nosso país apresenta. Com a escalada dos preços do petróleo a situação agrava-se.

A utilização da Energia Nuclear poderia proporcionar uma enorme quebra nessa dependência energética, desafogando o país.

Parece-me a mim que a recusa à utilização desta energia baseada em questões de segurança, devido a possíveis acidentes, é despropositada. A tecnologia evolui de tal forma que tais situações têm muito baixa probabilidade de ocorrer. Lembre-se que há vários anos que não se registam acidentes significativos em centrais nucleares. Aliás, se este fosse o principal «defeito» da Energia Nuclear, já devíamos todos estar bem amedrontados com a Central Nuclear Espanhola situada a cerca de 30km da fronteira com Portugal...

O que me parece mais complicado é a questão dos resíduos tóxicos, altamente radioactivos. Em Inglaterra, por exemplo, existe uma autoridade totalmente independente que garante a segurança desses resíduos. Funciona na perfeição, muito graças à independência económica e politica dessa «fiscalização».

Parece-me, pois, que em Portugal seria difícil garantir tal independência dum organismo semelhante, a fim de se garantir a «limpeza» desta solução energética. Talvez ainda tenhamos de aprender e saber algo mais sobre este assunto, mas, na minha opinião, pode ser uma das soluções de que precisamos.

Que vos parece? Há condições para a criação de um organismo fiscalizador, totalmente independente, capaz de garantir o limpo funcionamento da Energia Nuclear?

Pode ser uma solução?

40 comentários:

Bruno disse...

O que me parece - aliás estou certo disso - é que o problema de dependência energética que vivemos não permite que digamos "Não, de caras!" a nenhuma solução.

Eu tenho as maiores dúvidas em relação à Energia Nuclear. Fiz alguma pesquisa sobre o tema na UV 2006 em que tratei com nosso amigo Ricardo "Panamá" Lopes da documentação a entregar aos alunos que fizeram a simulação de discussão de uma proposta legislativa sobre a construção de uma Central Nuclear em Portugal. A situação era fictícia mas pudemos basear-nos em informações bem reais porque já muita gente discute o assunto em Portugal.

Mas a verdade é que não houve ainda uma debate esclarecedor. Falo de "um debate" no sentido lato, no sentido em que discutamos o assunto em vários fóruns, sob várias perspectivas e ouvindo todos os quadrantes da sociedade.

Realmente não ajuda que os opositores dasta opção se centrem tanto nos perigos de acidente uma vez que estes estão cada vez mais minimizados. No entanto, não esqueçamos que até podem existir 3 ou 4 centrais em Espanha junto à nossa fronteira. Construir em Portigal será sempre aumentar o potencial de risco...

Para mim, o principal argumento contra é o facto de Carlos Pimenta defender que há muitas outras fontes de energia a explorar antes de termos que nos voltar para a solução nuclear. É que eu respeito muito a sua opinião!

jfd disse...

Meus caros, um pequeno apontamento de reportagem...
Hoje no Rádio Clube Português, no programa Conversas de Café (acho que é este o nome, é recente a minha sintonia neste posto), Dom Duarte referia, que embora não tivesse posição definida, queria lançar de forma correcta o debate do Nuclear em Portugal! A seu ver, as coisas não estão a ser discutidas de forma correcta.
Um grande bem haja a este grande visionário!

Filipe de Arede Nunes disse...

Para mim existe apenas uma questão: qual o custo real da energia nuclear?

Se comparada com as existentes (excluindo a que resulta da queima de combustiveis fosseis), for mais barata, então estamos só uns 15 anos atrasados!

A dependencia do país face aos combustiveis fosseis é algo que me assusta e de que maneira. De um momento para o outro podemos ficar literalmente às escuras e regredir 150 anos em qualidade de vida! Esta é que é a questão!

Ademais, estou farto de ouvir por aí muita a gente a falar de aspirinas, quando nós precisamos é da vacina!

Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

José Pedro Salgado disse...

Se o que Vitor Constâncio disse foi o que eu percebi, então não podia estar mais de acordo.

É que me pareceu que ele estava a abordar a questão como o Bruno agora a colocou: o nuclear pode não ser a solução, mas não pode ser afastado logo à partida, sem debate e discussão sérios.
E aí não podia estar mais de acordo.

Tendo dito isto, não apoio a solução nuclear. Talvez um dia não haja outro caminho, mas estamos muito longe de não termos outras hipóteses.

EM disse...

Ponto 1: Apoio a opção Energia Nuclear porque é a que têm menor custo final €/kwh.

Ponto 2: A Produção de Energia Eléctrica a partir da Fissão Nuclear implica um entendimento político alargado e elevada capacidade técnica.

Ponto 3: É um processo que leva cerca de 20 anos a mostrar resultados práticos.

Ponto 4: A Finlândia é um dos países que pretende assegurar a sua independência energética e decidiu pela opção do nuclear.

Ponto 5: Como isto é Portugal e não a Finlândia, esqueçam! Há mais probabilidades de Portugal ser anexado pela Espanha do que vir a ser construído um reactor nuclear em solo português.

EM disse...

Mental Note:

O "post" sobre o novo treinador da Selecção nacional de futebol mereceu mais comentários até agora, 23:53, do que este que aborda a segurança energética de Portugal.

TAF disse...

Acabei de fazer um post sobre isto n'A Baixa do Porto

José Pedro Salgado disse...

Oh EM, a diferença também não é assim tão grande.

E de qualquer maneira não me chocava se fosse: convenhamos que o estranho seria que as pessoas percebessem mais de energia nuclear do que de futebol.

EM disse...

Obras públicas... deixa-me cá lembrar... Alqueva levou 30 anos. CRIL uns 30 anos. Aeroporto Lisboa prevê-se que leve meio século (desde 1969 primeiros estudos, pronto em 2019).

Eu também já disse o que tinha a dizer aqui e aqui e aqui.

Luis Carvalho disse...

Olá a todos.
Em primeiro lugar queria expressar o meu total acordo com o josé pedro salgado. Não apoio a opção nuclear, mas esta deve ser debatida e não deve ser afastada logo à partida...
Queria trazer para o debate um nova parâmetro de discussão:
Quando falamos que a opção nuclear pode ajudar à nossa independência energética penso que estamos a cometer uma considerável falácia..

1-A grande dependência energética de Portugal encontra-se nas enormes quantidades de petróleo que importamos.Segundo a DGEG, 60% da importação de energia primária em 2003 foi sobre a forma de petróleo.

2-Destes 60% apenas uma reduzida parte é usada no sector energético( ver estudo do ISP "http://in3.dem.ist.utl.pt/master/02energy/pres8_1.pps" slide 10 ou 11)

Por outro lado o sector da indústria e transportes são aqueles que usam a maior parte do petróleo importado. Se continuarmos a fazer zoom nos sectores, vemos que na industria a grande responsável pelo consumo é a indústria química.

3-Uma central Nuclear não faz andar os transportes e não serve de matéria prima para alimentar a industria química, os dois maiores gastadores de petróleo, que por sua vez é o nosso principal calcanhar de Aquiles.

Ou seja, uma central nuclear não vai de encontro ao grande primeiro problema energético que Portugal tem, o sector do transportes.

Nem tão pouco vai de encontro ao segundo, a eficiência energética, ou melhor a grande falta dela...

Resumindo:

-Não faço a mínima de quanto custa uma central nuclear mas sei que é cara.
-Mais,duvido que a construção de apenas uma tivesse algum efeito visível no sector energético.
-Políticas de melhoria da eficiência energética levariam a menores consumos sendo provavelmente mais baratas do que construir centrais nucleares.
-E por fim, a solução nuclear, no meu ponto de vista, não aponta para o grande alvo da nossa dependência energética (os transportes e industria química. E se não aponta para os grandes problemas, está condenado a falhar..

Abraços democráticos

Filipe de Arede Nunes disse...

O principio da solução para os transportes está aí: são os carros electricos.

Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

TAF disse...

"O principio da solução para os transportes está aí: são os carros electricos."

Eu diria que são os transportes públicos.

Paulo Colaço disse...

Eu também, caro TAF, eu também.

Caro EM, um país que sabe mais sobre nuclear do que sobre desporto é muito suspeito... ;)

Filipe de Arede Nunes disse...

Não vivo na ilusão dos transportes públicos. O petroleo acabará um dia, com tanta certeza como estar aqui a escrever estas linhas.

Também tenho a certeza, que muito antes de acabar, o seu preço será proibitivo.

Parece-me que tem falta de visão, quem acredita que é possível manter o status quo como ele é. Os transportes colectivos funcionam com derivados do petroleo, pelo que é essencial abandonar de vez esta matéria-prima.

Serão não só os nossos netos, mas também os nossos filhos que nos agradecerão por abraçarmos o nuclear hoje.

Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

Guilherme Diaz-Bérrio disse...

Filipe,

O principio da solução são os transportes públicos, sem dúvida. O que não invalida que essa mesma solução - que também há-de ter meio e fim - não passe pelos carros electricos [pessoalmente acredito que se tornarão económica e tecnológicamente viaveis nos próximos anos, em especial nos transportes públicos ;)] ou outras formas de "transporte" que a criatividade humana desenhe...

Quanto ao Nuclear:
Sou contra a opção, não por questões financeiras - embora seja um negócio que "compensa" o baixo custo operacional com elevados custos de capital/desmantelamento/tratamento de residuos - mas por questões mais tecnicas [Se calhar o Manuel Nina poderá vir aqui explicar bem melhor que eu, dado que é uma temática que ele conhece bem ;)].

E subscrevo na integra o Luís Carvalho:
A grande factura energetica que este país paga é o parque automóvel [em termos per capita, um dos maiores da Europa e que continua a crescer, embora no meio da "crise"], transportes [Os grandes "planeadores" do Terreiro do Paço esqueceram-se que também existem transportes alternativos como por exemplo comboio ...] e industria quimica.

A desculpa de termos centrais nucleares para garantir segurança energética não cola quando observamos quais os sectores que mais consomem energia!

Bruno disse...

Olha, boa! Já ouvi - finalmente! - um argumento sério e forte contra o "Nuclear": não é boa solução porque não é a mais indicada para o real problema.

Afinal vale a pena debater! Ainda bem que existe o Psico...

Filipe de Arede Nunes disse...

Se o parque autómovel nacinal for sendo gradualmente substituido por veiculos electricos, então a questão passará a ser: como alimentar com electricidade os novos veiculos?

Eu respondo: com a forma mais barata de produzir energia electrica, ou seja, energia nuclear.

Eu estou a pensar a meio prazo, e não me limito a tentar encontrar a solução para o momento, até porque pessoalmente, e como utilizo transportes publicos, não sinto directamente a subida do preço do petroleo.

Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

Guilherme Diaz-Bérrio disse...

Continua a colocar-se uma questão curiosa:
Embora tenha menores custos operacionais muito mais baixos, os custos de capital somados aos custos de desmantelamento da central e gestão de residuos são bastante elevados. Grande parte das Centrais por essa europa fora chegam a a ser subsidiadas - embora com o crude a estes preços o preço da energia fica ela por ela.

Sobra também as questões mais tecnicas - água para arrefecer o reactor e outros aspectos - a pesar do lado da balança... compensa os riscos operacionais/financeiros antes de se explorar os restantes recursos que temos ao nosso dispor [hidricos, solar, vento, ondas, etc,etc,etc]?

Filipe de Arede Nunes disse...

Guilherme,

No primeiro comentário que escrevi dizia assim: "Para mim existe apenas uma questão: qual o custo real da energia nuclear?"

Se de facto os custos globais da energia nuclear forem superiores aos das energias renovaveis, então ninguem me verá vir aqui defender o nuclear.

Agora, é preciso é conhecer os números!

Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

Bruno disse...

Oh Filipe, desculpa mas devessentir directamente os efeitos do preço do petróleo. O teu passe não aumentou???

Guilherme, quando falas de contabilizar nos custos de uma central o seu desmantelamento isso significa que a sua vida útil é demasiado curta e não permite rentabilizar a sua utilização?

Guilherme Diaz-Bérrio disse...

Sim, julgo que a vida útil de uma central é de cerca de 40 anos e não é barato desmantelar o reactor. [posso estar errado...tenho que aprofundar o tema]

Esse valor deve ser somado aos custos de financiamento da construção e ao custo de gestão dos residuos produzidos pela central de modo a termos um custo operacional REAL por megawatt gerado [valor esse que não tem em conta a margem de lucro para o retorno ao investimento sobre a central...]

Moral da história:
A favor ou contra, o debate continua a ser necessário ;)

Filipe de Arede Nunes disse...

Bruno,

Por isso é que eu não disse directamente.

Seja como for, os transportes publicos que uso são todos movidos a electricidade.

Se não dependessemos de combustiveis fosseis para alimentar a produção de electricidade, o meu passe sofreria muito menos impactos.

Certo?

Guilherme,

Estou de acordo contigo. Se se revelar que o custo total da energia nuclear é superior ao das energias renovaveis, então estou naturalmente disposto a alterar já a minha posição pró-nuclear.

Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

TAF disse...

"Vamos confiar no Estado para gerir um processo destes? Vamos entregar os estudos ao mesmo tipo de especialistas que defenderam a Ota? Que defendem o TGV? Que sistematicamente subavaliam os custos de seja lá o que for? Depois de já ter provado à saciedade a sua incompetência em planos grandiosos, é sensato confiar no Estado para mais um deles? Que fiabilidade terão as razões invocadas para um investimento desta grandeza?"

Aqui.

Bruno disse...

Da forma como as empresas de transportes se têm portado eu acho que os efeitos se sentem directamente. Mas isso é pormenor ;)

José Pedro Salgado disse...

É verdade Bruno.

Esta discussão e o que aprendemos com ela (pelo menos eu sei que aprendi) é a prova que não se deve negar à partida uma ciência que se desconhece.

José Pedro Salgado disse...

E o post do nuclear já tem mais comments que o do Queiroz.

Bruno disse...

E é provável que assim fique até porque eu e o Colaço acabámos de complementar a nossa discussão sobre Madaíl ao telefone ;)

EM disse...

Queiroz versus Nuclear. Agora estão empatados. Qual a potência de um parque eólico? E qual a potência de uma central nuclear? Aí está a grande diferença!

A vantagem é muito clara para o nuclear. Quanto aos transportes, estes podem ser substituídos a curto prazo por trens eléctricos, metros de superfície, comboios/TGV, táxis eléctricos, segway. E é preciso muita energia eléctrica para os "abastecer". Num horizonte próximo, o nuclear seria a solução "de facto" que asseguraria a independência energética de Portugal. Num cenário de crise petrolífera, onde os carros ficam "encostados" sem gasosa, o nuclear acaba por ser uma solução, mais barata €/MWh do que construir centrais solares/parques eólicos.

E não se esqueçam de uma coisa: sem energia, a sociedade pára. O petróleo é responsável por assegurar "on demand" a necessidade diária da sociedade. Ela varia bastante ao longo do dia. Com uma central nuclear, é possível ajustar a potência lançada na rede, conforme as necessidades.

E se não houver vento? E se não houver luz, como acontece à noite? E se houver uma grande seca, que acaba por baixar o potencial hídrico? Ou se o gás/carvão/fuel-óleo também começar a escassear? Já pensaram nisso? Então PENSEM!

Filipe de Arede Nunes disse...

Concordo em absoluto com o que diz o EM.

Estas é, no meu entender, o prisma pelo qual se deve fazer esta discussão.

O resto é conversa!

Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

Guilherme Diaz-Bérrio disse...

O resto será mesmo conversa?

Eu pessoalmente tenho uma pequena deformação profissional - quando penso em algo a minha mente vai logo parar a diversificação ;). Julgo que o futuro será a diversificação de fontes energéticas num Mix de fontes e tecnologias. [Alias parte do problema surge exactamente do excessivo peso e concentração em combustiveis fosseis].

Mas mesmo retirando o facto de o grande problema de consumo e emissões é o parque automóvel, e retirando também o facto de a produção de electricidade em Portugal é à base de Carvão, Gás Natural e recursos hidricos - não é à base de fuel-oleo - ainda sobram algumas questões:
Tem a Rede Electrica Nacional capacidade para receber uma Central Nuclear?
Julgo que a REN foi feita e estruturada para operar por grupos. Se um grupo de 300 MW falha, outro grupo entra e compensa. Não foi desenhada para uma Central de 1600 MW a operar no meio. Outra questão é a capacidade das linhas da REN - julgo que não aguentam uma Central Nuclear. Este valor - a reestruturação total da REN para "receber" a central nuclear - tem de ser tido em conta...

Continuo a tender para o outro "paradigma": Diversificação de fontes e tecnologias energéticas e maior eficiencia no gasto, em vez de construir um "monstro" para substituir outro "monstro"...

Luis Carvalho disse...

Caro em

alguns comentários

1."Quanto aos transportes, estes podem ser substituídos a curto prazo por trens eléctricos, metros de superfície, comboios/TGV, táxis eléctricos, segway." Par mim o conceito de curto prazo são cerca de 15-20 anos. Não vejo neste espaço de tempo a possibilidade de a sociedade Portuguesa fazer tal rápida mudança de pensamento. confesso que gostava de ver isso, mas duvido profundamente e considero um cenário irrealista.

2. "Num horizonte próximo, o nuclear seria a solução "de facto" que asseguraria a independência energética de Portugal." Uma vez mais reitero aqui que o meu conceito de curto prazo (15 a 20 anos). Uma central nuclear demora em média 7 a 10 anos a ser construída. Isto claro se todo o processo decorrer como previsto,sem oposição da população etc etc. Algo que me Portugal, com em outras partes do Mundo à raro acontecer. Se assim for, metade do curto prazo foi gasto a construir algo que ainda nem funcionou.

No entanto, num período de 15 a 20 anos, penso ser possível implementar uma política séria de eficiência energética que poderia fazer poupar ao pais cerca de 20% de energia que é desperdiçada em Portugal.

3. "Num cenário de crise petrolífera, onde os carros ficam "encostados" sem gasosa, o nuclear acaba por ser uma solução, mais barata €/MWh do que construir centrais solares/parques eólicos."
Lá estamos nós a confundir as coisas. Uma central nuclear não faz andar carros.
Será que o nuclear é mesmo mais barato? Confesso que não tive tempo de aprofundar o tema, no entanto descobri que na Alemanha isso é verdade, mas é verdade por causa de um truque financeiro. A razão prende-se com o facto de o estado financiar a desactivação da central e o tratamento dos resíduos perigosos. Caso estes custos fossem suportados pela entidade exploradora as coisas seriam diferentes.
Numa central termo-eléctrica os custos são todos suportados pela entidade exploradora, o mesmo se passando com a energia eólica (se bem que há subsídios na venda do KW para as eólicas). Resumindo, a vantagem financeira das Nucleares não é no meu ponto de vista tão evidente assim.

4."Com uma central nuclear, é possível ajustar a potência lançada na rede, conforme as necessidades." Esta é uma vantagem do nuclear, uma forte vantagem.

5.A volatilidade das renováveis é sem dúvida um dos grandes calcanhares que Aquiles. No entanto eu vejo esta desvantagem como uma oportunidade para novos desenvolvimentos tecnológicos, para uma nova maneira de pensar na captura e distribuição de energia. Vejo desafios como passos em frente no nosso desenvolvimento como sociedade. Dizer que o nuclear resolve a nossa demanda energética é adiar o problema. Temos de repensar a NOVAS formas de captar e usar energia e ficar preso a ideias dos anos 50.

Abraços democráticos

Guilherme Diaz-Bérrio disse...

O custo por kW de uma Central Núclear de 1600 MW [7 anos de construção/40 anos de produção] ronda os 4-5 centimos por kW.

Note-se que o custo por kW da opção eólica "on-shore" é de 2.8-8.0 centimos por kW - depende onde se colocam os "moinhos" - portanto a vantagem económica não é nada evidente!

E note-se que em França e Alemanha - os dois grandes paises "nucleares" - as centrais são "subsidiadas", como o Luis Carvalho refere... a opção não é assim tão obvia!

Guilherme Diaz-Bérrio disse...

Com uma central nuclear, é possível ajustar a potência lançada na rede, conforme as necessidades.

Isto não é o equivalente energético a construir um TGV e regular a velocidade para coloca-lo a par dum "inter-cidades" porque a linha não aguenta mais? ;)

Filipe de Arede Nunes disse...

Nota:

Se alguém me demonstrar que a energia renovável é suficiente para assegurar as nossas necessidades energéticas futuras a 100% e que é economicamente mais vantajosa, estou absolutamente disponivel para retirar o meu apoio à energia nuclear.

Alguém é capaz de fazer isso?

Cumprimentos,
Filipe de Arede Nunes

Luis Carvalho disse...

Ora a pergunta que o filipe de arede nunes faz é uma boa pergunta,e a meu ver, fácil de responder...

"energia renovável é suficiente para assegurar as nossas necessidades energéticas futuras a 100%" esta está fácil... a resposta é: Não, enquanto não se resolver o problema da sua volatilidade, ou seja, o facto de por exemplo não podermos fazer o vento soprar quando mais nos convier.
Confesso não saber qual a evolução da demanda energética nacional. Os trajectos podem ser vários: aumentar, manter ou até diminuir (se apostarmos a sério na eficiência). Penso uma vez mais que o discurso de uma central nuclear a injectar energia (dita barata) na rede é uma forma de desviar a atenção onde o discurso devia estar focado. Trabalhar com ferramentas baratas (politicas, legislação campanhas de informação) de modo a mudar hábitos e aumentar a eficiência energética...

O que nos leva à segunda parte da matreira questão do filipe

"e que é economicamente mais vantajosa" Ora, aqui arrisco a dizer que as renováveis são economicamente mais vantajosas.
Porque: 1- Diversificam a oferta, não se focando apenas numa tecnologia como a nuclear. Isto leva a que pequenas e médias empresas possam explorar várias oportunidades com hipotéticas novas explorações das renováveis. Algo que penso ser difícil com o nuclear, pois a construção ficaria a cargo de uma empresa francesa ou coisa do género (digo eu) e a tecnologia nuclear não é de todo domínio das pequenas e médias empresas (grande percentagem do nosso tecido empresarial).

2-Nuclear a mim também de faz lembrar outro mal do nosso amado País... faz-me lembrar centralização (algo que não gosto muito, mas isso é outro tópico..lol)... Com as renováveis, além da diversificação da oferta temos tb uma diversificação geográfica (há sol no sul, vento e água no norte, por exemplo). Pelos motivos descritos em 1, as renováveis criariam vantagens no tecido empresarial distribuído por todo o território. Penso que uma central nuclear não tem de todo esta vantagem.
E por fim como já referi num comentário anterior, contabilizando todos os custos de uma nuclear, não sei se à partida a sua vantagem económica é assim tão óbvia...

Por tudo dito dito acima, espero ter esclarecido a tua pergunta...
"All we need to do is keep talking (Guilmour 1992)

Abraços democráticos

EM disse...

Guilherme: Acredito na diversificação como redução do risco associado ao uso de uma determinada tecnologia para produção de energia.

Segundo o plano de restruturação da REN, esta têm e vai aumentar a capacidade da sua rede de distribuição.
Não é imperativo ir logo para uma solução de 1000 MW. Mas já existe centrais de produção de energia eléctrica, no Carregado por exemplo, que ultrapassam esse valor. Ver aqui.
Vê se consegues também ver o gráfico de distribuição de carga aqui

Luís:

1 - Se o petróleo faltar num prazo de 40 anos, um governo responsável não vai esperar até esse dia chegar para lançar mãos à obra.

2 - Concordo consigo. Tenho enormes reservas em acreditar que Portugal consiga apostar em soluções de longo prazo (40 anos para cima) no actual regime de instabilidade social e crise económica. Há demasiado ruído.
Daqui a 20 anos o consumo de energia aumentou 20%. É a minha "regra", a 20/20. Existe um limite que não vale a pena investir mais para ganhar eficiência. Podemos mudar para um modelo de distribuição de energia eléctrica mais distribuído, com melhor eficiência no transporte, mas não vai chegar se o actual aumento de consumo manter-se.

3 - Por incrível que pareça, sim, é capaz. Daqui a alguns anos, será possível dizer que o "meu carro" é movido a energia nuclear, produzida por uma central no Alto Alentejo (hehehe) - através da decomposição da água em Hidrogénio e Oxigénio por electricidade - Ver projecto Ford Focus.

4 - Concordo consigo, como é óbvio.

5 - Sim, também concordo em geral. O nuclear seria um passo intermédio para implementar o projecto de fusão nuclear a longo prazo. E a própria experiência é fundamental a nível tecnológico da produção e distribuição da energia - e estamos já a falar em distribuição de energia na ordem dos 20 MW, 4 vezes mais do que actualmente.

Mas isto é gestão estratégia, se a malta anda preocupados com assuntos como poder pagar a renda da casa no próximo mês, esqueçam...

EM disse...

Guilherme:

Se tiveres uma Central nuclear a produzir o máximo de energia, a própria central estará a trabalhar no limite, a rede de distribuição pode não aguentar a carga a nível de transformadores, e é claro, os consumidores finais têm oscilações no seu consumo, e se houver uma potência fornecida contínua ao longo do dia, vai haver sobrecarga de energia - picos de corrente, equipamento que simplesmente "explode", ou seja, uma situação caótica. Produzir conforme a necessidade, que varia.

E para que não confundam Potência (W) com Energia fornecida/consumida (Wh)

"Power and energy are frequently confused in the general media. Power is the rate at which energy is used. A watt is one joule of energy per second. For example, if a 100 watt light bulb is turned on for one hour, the energy used is 100 watt-hours or 0.1 kilowatt-hour, or 360,000 joules. This same quantity of energy would light a 40 watt bulb for 2.5 hours. A power station would be rated in watts, but its annual energy sales would be in watt-hours (or kilowatt-hours or megawatt-hours). A kilowatt-hour is the amount of energy equivalent to a steady power of 1 kilowatt running for 1 hour"

jfd disse...

Quinta Feira passada, Al Gore, desafiou os Estados Unidos a terem, em 10 anos, 100% da sua produção de electricidade proveniente de fontes renováveis.
Isto sim é um plano, tudo o resto é conversa.

10 anos é um prazo suficientemente assustador para levar ao stress que já levou este mundo a ver das suas maiores descobertas.

Cada vez mais este problema esta economizado. E aí sim, teremos solução. Até lá, com os subsídios e os Estados a meterem-se no caminho, nada de bom virá no nosso sentido!

jfd disse...

Aqui está um exemplo do que eu falava ontem.

Correio da Manhã
Cada português vai pagar este ano cerca de 35 euros para o financiamento das energias renováveis. É um dos custos ‘escondidos’ na factura de electricidade que é pago por todos os consumidores domésticos. Ao todo, os portugueses vão pagar este ano 352 milhões de euros.


Este modelo Socialista será viável no longo prazo?
Até que ponto é que cria empresas de Renováveis realmente competitivas e adaptadas ao mercado?
Não haverá aqui um dirigismo renovável encapotato?
:P

Bruno disse...

O Presidente em Portugal da Endesa (empresa que tem 8 centrais nucleares em Espanha) diz que no actual contexto, as renováveis são a solução. Nuno Ribeiro da Silva comparou mesmo a discussão do nuclear com a dos casamentos gay dizendo que não é uma prioridade.

A sua justificação é a seguinte: Primeiro, a energia nuclear só produz electricidade. E esta só representa um quarto das necessidades do País. (...) Segundo, em Portugal não se produz electricidade com recurso a derivados de petróleo. Por isso a ideia de que o nuclear iria resolver o problema da dependência petrolífera é descabida e uma panaceia