segunda-feira, agosto 04, 2008

Poder descansar

O Psico-convidado e amigo do Psicolaranja António Pinheiro Torres envia-nos uma sugestão de reflexão para estas férias:

«Os discípulos colocaram a Jesus o problema do stress e do descanso.Os discípulos regressavam da primeira missão, muito entusiasmados com a experiência e com os resultados obtidos. Não paravam de falar sobre os êxitos conseguidos. Com efeito, o movimento era tanto que nem tinham tempo para comer, com muitas pessoas à sua volta.
Talvez esperassem ouvir algum elogio por tanto zelo apostólico. Mas Jesus, em vez disso, convida-os a um lugar deserto, para estarem a sós e descansarem um pouco.
Creio que nos faz bem observar neste acontecimento a humanidade de Jesus. A sua acção não dizia só palavras de grandeza sublime, nem se afadigava ininterruptamente por atender todos os que vinham ao seu encontro. Consigo imaginar o seu rosto ao pronunciar estas palavras. Enquanto os apóstolos se esforçavam cheios de coragem e importância que até se esqueciam de comer, Jesus tira-os das nuvens. Venham descansar!
Sente-se um humor silencioso, uma ironia amigável, com que Jesus os traz para terra firme. Justamente nesta humanidade de Jesus torna-se visível a divindade, torna-se perceptível como Deus é.
A agitação de qualquer espécie, mesmo a agitação religiosa não condiz com a visão do homem do Novo Testamento. Sempre que pensamos que somos insubstituíveis; sempre que pensamos que o mundo e a Igreja dependem do nosso fazer, sobrestimamo-nos.
Ser capaz de parar é um acto de autêntica humildade e de honradez criativa; reconhecer os nossos limites; dar espaço para respirar e para descansar como é próprio da criatura humana.
Não desejo tecer louvores à preguiça, mas contribuir para a revisão do catálogo de virtudes, tal como se desenvolveu no mundo ocidental, onde trabalhar parece ser a única atitude digna. Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano.
O nosso frenesim à volta dos tempos livres, mostra que é assim. Muitas vezes isso significa apenas uma mudança de palco. Muitos não se sentiriam bem se não se envolvessem de novo num ambiente massificado e agitado, do qual, supostamente, desejavam fugir.
Seria bom para nós, que continuamente vivemos num mundo artificial fabricado por nós, deixar tudo isso e procurarmos o contacto com a natureza em estado puro.
Desejaria mencionar um pequeno acontecimento que João Paulo II contou durante o retiro que pregou para Paulo VI, quando ainda era Cardeal. Falou duma conversa que teve com um cientista, um extraordinário investigador e um excelente homem, que lhe dizia: "Do ponto de vista da ciência, sou um ateu...". Mas o mesmo homem escrevia-lhe depois: "Cada vez que me encontro com a majestade da natureza, com as montanhas, sinto que Ele existe".
Voltamos a afirmar que no mundo artificial fabricado por nós, Deus não aparece. Por isso, temos necessidade de sair da nossa agitação e procurar o ar da criação, para O podermos contactar e nos encontrarmos a nós mesmos.»
Autor: Cardeal J. Ratzinger, "Esplendor da Glória de Deus", Editorial Franciscana, 2007, pág. 161.


Desejo um bom descanso a todos e até Setembro onde nos encontraremos para novas aventuras e grandes combates políticos!
Um abraço do Antonio Pinheiro Torres
http://www.porcausadele.blogspot.com/

8 comentários:

José Pedro Salgado disse...

Não obstante o meio escolhido para veicular a mensagem não seja da minha preferência, não podia estar mais de acordo.

Períodos passados sós em reflexão abstracta e alguma meditação são tão essenciais para o desenvolvimento humano como todos os outros, e cada vez mais pervertemos a nossa natureza ao tentar negar isso.

Paulo Colaço disse...

Cocordo inteiramente.
Mais tarde dedicarei um melhor comentário sobre este post mas aproveito para enviar um forte abraço ao Dr. António Pinheiro Torres, antigo Deputado do PSD e grande mobilizador de causas sociais (vide o link do post).

Nélson Faria disse...

Aqueles que me conhecem bem sabem o quanto valorizo aquilo a que eu, jocosamente, fui chamando de retiros espirituais. Nem sabia o quão perto a brincadeira se encontrava da verdade.

Para nos encontramos, para avaliarmos o nosso percurso, para recentrarmos as nossas forças e atenções, nada melhor que conseguir um tempo para parar e simplesmente existir.

Se o fizermos na presença de Deus e na Paz de Cristo melhor ainda.

Para os de outras fés - ou de nenhuma fé mesmo - limpem a mente dos preconceitos e tirem um tempo para pensar em Voçês, não no campo do Ter e do alcançar, mas do Ser e do realizar.

Nélson Faria disse...

Leiam um pouco sobre os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Exerc%C3%ADcios_Espirituais

E, para quem quiser, os exercícios no Portal dos Jesuítas Portugueses.

http://www.ppcj.pt/sjee.htm

Nélson Faria disse...

Por último, o meu muito obrigado a António Pinheiro Torres pela colaboração com o Psicolaranja.

E, num tom mais pessoal, o meu muito obrigado pela exposição na minha primeira aula na UV'05: foi determinante a sua explanação para eu definitivamente ser pró-vida.

Um grande bem haja.

Bruno disse...

Conheci o nosso Psico-Convidado, António Pinheiro Torres na UV em 2005, em que participou num debate com Paula Teixeira da Cruz sobre a Legalização do Aborto Livre. Estou como o Né: a sua participação contribui fortemente para o reforçar das minhas convicções e para me esclarecer em relação ao tema.

De lá para cá tenho tido mais interesse em acompanhar o trabalho de Pinheiro Torres, em saber o que fez como nosso Deputado e o que faz em termos de intervenção social. Estou a dever a mim mesmo uma oferta para colaborador da Ajuda de Berço desde o último referendo ao Aborto.

Este texto que aqui nos deixa foca algo em que ainda há dias pensava: quantos conflitos poderíamos evitar se tivéssemos sempre a capacidade de parar para pensar? Quantas discussões, desentendimentos pessoais ou mesmo institucionais, talvez até guerras poderiam ser evitadas se todos tivessemos a preocupação de "descer a terra" sempre que a euforia toma conta de nós?

Não querendo também neste pensamento "entrar em euforias" deixo apenas a convicção desta ideia: é fundamental lembrarmos estas palavras que o nosso amigo e convidado nos traz, independentemente das nossas tendências religiosas ou até mesmo do nosso ateísmo. Palavras sábias são sempre lições que devemos aproveitar.

Aproveitem este período de férias para descansar, para reflectir, para se encontrarem convosco próprios, com Deus se assim acreditarem! Mas tirem daí algum proveito. Pensem no que poderão fazer de diferente e para melhor após esse período de reflexão.

Cidália disse...

O tema foi de tal maneira bem apresentado que fica pouco para dizer. De resto, a exposição é tão intimista, tão sensitiva que: palavras para quê?
Apenas para confirmar que sim, sinto muitas vezes necessidade de parar, de me recolher, de me isolar para O sentir e humanizar-me.
O dia a dia impreme ritmos que não nos deixa espaço para a reflexão.
Contrariar esse ritmo cria-me, em algumas circunstÂncias, problemas de consciência, porque não estou a dar o meu máximo, porque não me quero dar o direito ao descanso.
Mas quando a necessidade é muito grande, cedo, entrego-me e até me sinto crescer interiormente.

Este post foi um bom pretexto para parar e reflectir.
Obrigado

Paulo Colaço disse...

"Olhar, contemplar, o recolhimento, o silêncio parecem inadmissíveis, ou pelo menos precisam de uma explicação. Assim se atrofiam algumas faculdades essenciais do ser humano."

O recolhimento é tão importante para a nossa travessia de vida como o sono o é para a travessia do dia seguinte.

E, por vezes, nada como umas férias bem divertidas para darmos por nós a reflectir, sozinhos, e a magicar o nosso futuro.

É o que me tem acontecido nestas férias. Ao reler a sugestão de leitura do nosso caro António Pinheiro Torres tive a clara perceçpão disso.