sábado, agosto 02, 2008

E recordar é viver

Há precisamente 40 anos, António de Oliveira Salazar caiu da cadeira no terraço do Forte de Santo António, no Estoril. Faleceu cerca de um ano mais tarde convencido de que ainda era Presidente do Conselho. Quer gostemos ou não, foi um dos nossos estadistas mais carismáticos e a sua passagem pelo Governo foi marcante. É bom sabermos recordar a nossa história.
Deixo aqui um excerto da última entrevista de Salazar, datada de 7 de Setembro de 1969, a um jornalista francês quando questionado acerca de Marcello Caetano:
Salazar - "Conheço bem Marcello Caetano. Foi várias vezes meu ministro e aprecio-o. Ele gosta do poder: não para retirar quaisquer benefícios pessoais ou para a família: é muito honesto. Mas gosta do poder pelo poder. Para ter a impressão exaltante de deixar a sua marca nos acontecimentos. É inteligente e tem autoridade, mas está errado em não querer trabalhar connosco no Governo. Porque, como sabe, ele não faz parte do Governo. Continua a ensinar Direiro na Universidade e escreve-me às vezes a dizer-me o que pensa das minhas iniciativas. Nem sempre as aprova e tem a coragem de mo dizer. Admiro a sua coragem. Mas parece não compreender que, para agir com eficácia, para ter peso sobre os acontecimentos é preciso estar no Governo".

15 comentários:

Inês Rocheta Cassiano disse...

Já Churchill dizia que "aquilo que caracteriza um grande homem é o seu poder de deixar uma impressão duradoura nas pessoas que encontra"

Daniel Geraldes disse...

Olhe que o Salazar começa a deixar saudades.

Luís Nogueira disse...

Caro Daniel Geraldes. O ditador pode "começar a deixar saudades" a todos aqueles que sempre defenderam e viveram o modelo político preconizado pelo próprio, ou então, pelos que já nascendo sob o clima da liberdade democrática, pretendem confrontar o presente com utopias e histórias mal contadas do passado.

Eu não posso ter saudades de uma pessoa ou de um tempo em que nunca vivi, bem como de alguém que não compartilhava dos ideais democráticos que são hoje aceites e defendidos entre nós.

Não renego a história do meu país, nem o "carisma", se o houve, por parte de Salazar. Tenho é pena de quem quer apagar a história, como medo de algum fantasma no armário...

Daniel Geraldes disse...

É verdade Luis, completamente de acordo, mas olha que as vezes esta democracia precisava de um pouco mais de ditadura, tal como a ditadura precisava um pouco mais de democracia.

Mas não há regimes perfeitos.

Pedro disse...

Basta olhar para a matilha que tomou conta da nacinha.

http://portugaldospequeninos.blogspot.com/2008/08/depois-da-queda.html

Há por aí um livrito, que facultei a um amigo escriba, sobre a fundação do PS que é muito elucidativo acerca do roubo e da prostituição regimental. Aconselho, para quem desconheça, a leitura do diário de Franco Nogueira (no Dragoscópio podem ler umas passagens mas nada como a leitura integral) para se perceber o porquê desta Democracia ter tanto de Democracia como o regime fascista de fascismo. Um bordel é sempre um bordel - mudam-se os tempos, mudam-se as madames, transitam as pernas. Sempre bem abertas, como convém.

Bruno disse...

Salazar tinha muitas qualidades. Acredito que sim, por tudo o que li e sei. Tinha também defeitos. Pois tinha! E um deles dava cabo das qualidades todas: achava que para se manter o poder e a governação do país no sentido que ele defendia era possível calar as pessoas à força, prendê-las, torturá-las e até matá-las. Isso não é aceitável. É uma das tais situações que eu considero pouco civilizadas, aceitando, humildemente que possa estar enganado porque o meu conceito pessoal de civilização não mais que isso mesmo: pessoal.

Mas Salazar governou este país durante muitos anos, efectuou reformas e obras e seria realmente alguém de grande carisma. Quer queiramos ou não ficou na nossa História e por isso não devemos procurar apagá-lo. Quem foge dele como o diabo da cruz está a cometer um erro porque falar dele é, no mínimo, despertar as pessoas para que não volte a haver outro...

Neste sentido, parabéns Inês, pelo teu post!

Luís Nogueira disse...

Daniel, mais "ditadura" em que aspecto? Em termos de coerência no discurso e nas políticas, "de ser isto e isto mesmo"?

Outra coisa, tens alguma noção sobre o "turn over" na Assembleia da República ou em algumas Autarquias deste país?

Por este último ponto de vista, parece existir um pouco do que proclamas ;)

Daniel Geraldes disse...

Mais ditadura em quase tudo, na justiça para evitarmos Quintas da Fonte, mais ditadura para evitarmos "Dá-me já o telemovel", mais ditadura para evitarmos despesismos como "Casa da Música", mais ditadura para evitarmos "agressões a juizes em Sta Maria da Feira".

É que nascendo eu em plena democracia,e não tendo qualquer antepassado politico, começo a acreditar que o Salazar mesmo sendo ditador era um gajo mais sério que esta malta toda sendo democrata.

É so esse o meu ponto de vista.

Paulo Colaço disse...

Salazar era uma figurinha!
Cada um de nós tem a sua visão da sua passagem pelo Governo e do fardo pesado que nos legou mas é impossível não sorrir com passagens destas!

Nélson Faria disse...

Durante a ditadura não havia crime ou desrespeito à autoridade? Claro que havia. Não chegava era a todos, e fruto da sua época, tinha um impacto menor.

Eu não sacrifico a liberdade por nada: é o sacrossanto valor. Que precisa de melhorar o nosso Estado? Claro.

Mas temos que dar valor a que possamos criticá-lo. Fosse Salazar poder e o Daniel já estaria em Peniche por exercer o livre direito a ter uma opinião... ou em França, para continuar a exercê-la livremente.

Daniel Geraldes disse...

Ou então estaria na ala liberal do regime.

Nélson Faria disse...

E não querendo parecer um perigoso esquerdita, eis algumas frases de Salazar que eu particularmente aprecio (a primeira por concordar, as outras duas por serem caricatas):

Um Estado forte, é assim, a primeira necessidade. Mas não há Estado forte onde o Governo não o é.

Para cada braço uma enxada, para cada família o seu lar, para cada boca o seu pão.

Vós pensais nos vossos filhos, eu penso nos filhos de todos vós.

E, como penitência, termino com Churchill:

Todos os tiranos são inimigos da raça humana. Todos os tiranos devem ser derrubados.

Nélson Faria disse...

A "ala liberal" só é criada em 1969, com Marcello Caetano. E foram tão bem aceites pelos seus colegas deputados que em 1973 só Mota Amaral aceitou ser recandidato, preferindo todos os outros denunciar a farsa.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ala_Liberal

O link não tem toda a informação, mas dá um cheirinho.

Bruno disse...

Exacto! Quando li o comentário do Daniel pensei logo nisto que o Né disse. Com Salazar não estarias de certeza em qualquer "ala liberal".

Essa possibilidade só surgiu na Primavera Marcelista mas as ideias progressistas do sucessor de Salazar deixaram-no encurralado entre os duros do regime que não gostavam dele por ser demasiado brando e os contestatários que não deixavam de o ver como um seguidor da ditadura...

André Barata disse...

Sempre que se fala de salazar e do seu regime critica-se sempre a falta de liberdade. No entanto, talvez seja preferivel uma "liberdade restringida" do que uma "liberdade absoluta". Tanto mais que quanto mais se elogia e se espalha ao vento o enorme valor da liberdade, mais nos afastamos do ideal de justiça. O que é a liberdade que é ensinada hoje em dia, se nao mais do que uma convicção de que podemos fazer tudo aquilo que está ao nosso alcance? O certo, o errado, o bom, o mau, o justo, o injusto... nao mais é importante qual é o caracter das acções que nós praticamos. Pelo contrário, defende-se pura e simplesmente que toda a gente possa fazer tudo, mesmo que seja errado, mau e injusto. Fala-se do problema da corrupção, do mau comportamento dos estudantes, da criminalidade, etc etc. Qual é a principal culpa de tudo isto, senao de uma cultura que prima pela liberalização de todo e qualquer comportamento?

Se o regime era assim tão vil, e a democracia que depois surgiu é tão grande e harmoniosa, nao deveriamos estar hoje noutro sitio que nao na cauda da europa?