segunda-feira, abril 28, 2008

Diário de Bruxelas 2



Depois do primeiro relato sobre o estágio que estamos a fazer aqui no Parlamento Europeu, aqui vai mais uma posta, desta feita, de carácter mais aprofundado ao trabalho sobre o qual me tenho debruçado e realçando apenas 3 dossiers:

- PME´s - Foi aprovado, na mini-plenária de Abril, uma proposta da Comissão que visa apoiar as PME´s que desenvolvam I&D. É sempre positivo o apoio às PME´s que representam (pasme-se) 99,8% do tecido empresarial Europeu e empregam cerca de 100Milhões de trabalhadores. Em termos relativos, as percentagens para Portugal são semelhantes, mas não deixo de verificar que, sendo que o conceito de PME´s que desenvolvem I&D é enquadrável apenas naquele núcleo de empresas que utilisa 10% ou mais dos seus recursos a essa actividade, a verdade é que as empresas que beneficiam desta medida são precisamente as que não precisam porque já têm a sua situação financeira consolidada. Ficou assim a advertência, do Eurodeputado Dr. Silva Peneda, que ainda chamou a atenção para o facto de ser cada vez mais urgente o apoio aos projectos no modo "Start Ups"

- GNSS - O Jorge gostará desta. Foi finalmente concluído o processo legislativo relativo ao Galileo, que rivaliza com o Glasnoss Russo e GPS Americano. Ficaram alguns reparos vindos da esquerda europeia que criticou o facto de não se ter proibido o uso para fins militares. Eu pergunto: Porque não? Só por demagogia.

- Zimbabwe - Fiquei um pouco decepcionado com o debate sobre o Zimbabwe. Houve imensa informação errada a encher os media pelo Mundo fora. Uns diziam que o Barco chinês (An Yue Jiang) já tinha atracado mas que os trabalhadores das docas não descarregaram as armas; outros afirmavam que o Barco estava de regresso à China. Pelo meio disto corria o debate exortando-se às autoridades do Zimbabwe para libertarem os resultados acusando-se de se estar a cozinhar uma nova vitória de Mugabe. Dois dias depois saem os resultados provisórios com o anúncio da derrota de Mugabe...

Esta semana começo a trabalhar com mais uma comissão - TRAN - que tanta importância tem para Portugal já que envolve Transportes e Turismo.

17 comentários:

Tiago Sousa Dias disse...

Até ao final do estágio ainda terei 3 sessões plenárias que acredito que possam vir a trazer noticias muito giras.
Uma delas prende-se com o pacote de Energia (que para Portugal pouco diz porque já existe o "ownership unbundeling" no sector energético português, mas em todo caso poderá trazer chatices na Europa na medida em que se aplica somente ao transporte de energia... fala-se da extensão futura à distribuição).
A Alemanha e a França não gostam muito da piada e propuseram por antecipação uma chamada 3ª via que permitiria que em vez da separação patrimonial das empresas, na produção e transporte e/ou distribuição, pudesse ser apresentado um modelo de contabilidade autónoma dentro da própria empresa nas rubricas de produção, transporte e distribuição.

Nélson Faria disse...

Pergunta muito parva: porque é que temos de gastar dinheiro numa tecnologia para rivalizar com o GPS dos EUA? O deles funciona mal? Então porque não melhoramos o deles em vez de fazermos o nosso?

Grande abraço e obrigado por nos comunicares o que vão fazendo ;)

P.S. Traz informação sobre PME's aqui para o burgo ;) o MM bem que falava disso mas parecia-me sempre o típico político à procura de votos nos pikenos.

Paulo Colaço disse...

Ora cá está: o nosso MM dizia muita coisa acertada.
Com o afã de querermos fugir a más sondagens, hipotecámos uma liderança que só pensava no embate eleitoral com Sócrates e trocámo-la por uma liderança que passou 6 meses em ajustes de contas.

Tentou ajustar contas com secções e distritais, com barões e tutti quanti.

Passou demasiado tempo a olhar para o tal retrovisor...

João Marques disse...

A questão no meu entender, não me querendo adiantar ao que o Tiago poderá ou não dizer, é a velha problemática: queremos liderar ou seguir?

No plano técnico pouco mudará, mais ou menos metros de margem de erro, mais potencialidades técnicas XPTO, mas o cerne da questão é o da soberania.

Se o velho continente quer ter uma voz descomprometida e uma política própria deve tornar-se independente. Isto para que não surjam equívocos como as posições enviesadas sobre a guerra do Iraque em que a Europa de uma forma mais ou menos torpe limitou-se a seguir ou a envergonhadamente dizer que não mas (sem estar a fazer juízos de valor sobre a guerra).

Paulo Colaço disse...

Ontem fiz um comentário aqui e, quando o fui validar, a bateria foi abaixo...
Tentando recuperar ideias, eis que vos digo que no Zimbabué tenho receio que apenas as moscas mudem.

Terá de ser a comunidade internacional a dar uma ajuda para que erros do passado não se repitam.

Que ajuda? Know-how agrícola, científico, económico.

Talvez dinheiro, mas sobretudo ciência. É preciso que aprendam com os erros de Mugabe.

A terra é um bem importantíssimo e deve ser gerido com cabeça. As pessoas são o melhor recurso do país, pelo que é urgente instruí-las, qualificá-las.
O "resto-do-mundo" é fundamental para equilibrar a balança, para melhorar a imagem, para atrair investimento.

Que papel quererá ter agora o RU e a restante UE?

E obrigado, Tiago, pelas notas que vens dando sobre o vosso trabalho.

Guilherme Diaz-Bérrio disse...

Né, a questão do GPS americano não é funcionar mal...é uma questão de dependencia.

Embora o projecto europeu preveja uma maior "resolução" (a margem de erro do GPS é 10 metros, a margem de erro prevista do Galileo é de 1 metro) o problema é que o GPS é um projecto ainda controlado pelo exercito norte-americano (Ao contrário da internet que foi desenvolvida pelo departamento de defesa mas hoje é "gerida" por civis). Os EUA podem desligar o sistema quando em conflitos, e já o fizeram uma vez: durante a primeira guerra do golfo. Essa é a justificação para a europa avançar com o seu proprio sistema: é uma tecnologia vital no sistema de transportes europeu e a UE não quer estar nas "mãos do pentagono".

Quanto às PMEs, MM tinha muita razão no que dizia mas a mensagem não passava...o tecido empresarial a incentivar e fomentar na europa em geral e em Portugal em particular são as PME. Curiosamente são essas as mais sacrificadas pela nossa politica fiscal.

Tiago Sousa Dias disse...

Né o Guilherme disse quase tudo o que eu precisava de dizer. Mas em termos técnicos ainda há mais uma novidade: além do nível planimétrico, agora vai haver navegação altimétrica, o que permite, por exemplo, que um avião aterre em piloto automático.
A questão politica é mais complexa e agora não tenho muito tempo mas virei cá dar mais umas achegas mais tarde.

Tiago Sousa Dias disse...

És tu és. Como homem das comunicações achei que irias gostar... ;)

jfd disse...

MM tinha muitíssima razão. E o próximo líder do Partido é bom que faça das PME um cavalo de batalha. O futuro do País e do Mercado Único está nas PME.

No último semestre, dizia eu aos meus colegas, entre outras coisas, numa aula de Economia Portuguesa e Europeia, acerca do Futuro do Mercado Interno (da UE) e das intenções da CE expressas no documento A single market for 21st century Europe - COM(2007) 724 final;

A Small Business Act for Europe – a Comissão irá examinar uma série de iniciativas em 2008 por forma a efectuar este Act. Terá linhas mestres especialmente pensadas para as PME numa lógica do princípio “pensar pequeno primeiro!”. Deverá juntar elementos das PME presentes em várias politicas e leis com o objectivo de reduzir a carga administrativa ao estritamente necessário. Será também examinada como as diferentes políticas e práticas fiscais afectam o crescimento das PME. Será proposto o estatuto de European Private Company para facilitar as actividades transnacionais das PME.

Melhoria do ambiente fiscal – continuarão a efectuar-se esforços para reduzir os custos resultantes da fragmentação fiscal do Mercado Interno (MI) especialmente para as PME. Serão tomadas iniciativas especialmente para a redução da dupla tributação.

Ora bem, a CE propôs, e tem vindo a cumprir. Viva!

PS - Marques Mendes não andava a piscar o olho a ninguém com a mensagem económica, que muitos de nós tivemos a honra de ouvir pela primeira vez numa das últimas manhãs UV. Foi das mensagens mais fortes e que mais gostei vindas do meu partido. A mim só me interessa a economia, tudo o resto vem de arrasto. E tudo o (outro) resto é blá blá blá ;)

Tiago Sousa Dias disse...

A propósito do que acabas de dizer JFD aconselho uma vista de olhos na declaração escrita nº 35 em que um dos autores foi o nosso Eurodeputado Silva Peneda.
Há tempos que isso se pede. Parece que desta é de vez porque o documento da Com. dará entrada no Parlamento em Julho.

jfd disse...

LOL Tiago.
Por acaso esse assunto não conheço!
Galileu só conheço o nome como sendo o sistema de reservas Europeu (ou parte de!)!

Mas já agora. Há um assunto que me interessa e muito, a Unificação do Espaço Aéreo Europeu ;) Alguma ideia, dica, sobre o assunto?

jfd disse...

Tiago, podias ser um porreiro pá! e deixar aí o link ;)

Tiago Sousa Dias disse...

O ECAA vai incluir todos os Estado Membros, Islândia e Noruega (EEA), Albania, Bosnia-Herzegovina, Bulgaria, Croacia, Macedonia, Roménia, Servia e Montenegro e UNMIK.
Está à espera de posição comum e já foi aprovado na comissão de transportes (TRAN) há quase um ano (Julho).

Nélson Faria disse...

Mas os sistemas entendem-se um com o outro? Isto é: se eu tiver um GPS no carro, que usa o sistema norte-americano, ele será capaz de ler o Galileu?

Ou terei de comprar um novo?

Pergunta simples: um só aparelho lê os vários servidores (o GPS, o Galileu e o russo)?

Se assim for, menos mal. A mim sempre me pareceu política de quintal.

Tiago Sousa Dias disse...

O Guilherme pode-te responder mais precisamente a essa questão. Mas numa primeira fase o Galileo estará em Testes (prevê-se que seja utilizavel a partir de 2014) e só será completamente autónomo, previsivelmente, em 2027. Altura em que a transição estará concluída.
Coloquei a qeustão a um colega de cá (nós trabalhamos com a parte politica, não com a parte técnica) e a resposta é que funcionará mais ou menos como a rede UMTS para a GSM. Complementam-se e nunca perdes o sinal ;)

Guilherme Diaz-Bérrio disse...

O ano passado foi feito um acordo entre os EUA e a UE para garantir a compatibilidade dos dois sistemas e transmição do sinal na mesma frequencia de radio, complementado-se. No entanto ainda existem algumas questões a resolver na industria mas o objectivo/compromisso é tornar os sistemas complementares/compativeis de modo ao utilizador final não sentir diferença.

A grande fricção actual do sistema Galileo é o uso militar, ou ausencia dele.

O GPS tem uso militar, e os EUA - via Pentagono - reservam-se ao direito bloquear o sinal civil ou diminuir o sinal de modo a causar erros, ao mesmo tempo que continuam a usar o sinal militar. O sinal civil é também menos "exacto" que o sinal militar. Face a isto, e à iniciativa da UE - que inicialmente previa a neutralidade da tecnologia e a não distinção do uso - a China tornou-se interessada em adquirir a tecnologia. Os EUA ameaçaram que em caso de guerra abateriam os satelites Galileo, caso a UE "vende-se" a tecnologia a outros paises, China em particular...

Fora isso dentro da propria UE a questão não é unanime: uns defendem o uso militar semelhante ao GPS - em complemento com o conceito do exercito da UE - enquanto que outros, mais à esquerda, defendem a "neutralidade" da tecnologia...

Guilherme Diaz-Bérrio disse...

Note-se que a China depois desta "discussão" decidiu ir pelo caminho da pesquisa de um sistema próprio, tal como a Russia.

Na minha opinião, teremos nos GPS o mesmo que temos nos telemoveis: a UE e os EUA usam sistemas de transmissão de dados diferentes com protocolos diferentes e tu não notas a diferença porque o teu telemóvel é "dual band" (aka GSM 900/1800 as frquencias "europeia" e "americana")...