domingo, fevereiro 10, 2008

Conta-me histórias daquilo que eu não vi...


"- Really? Then take the universe and grind it down to the finest powder and sieve it through the finest sieve and then show me one atom of justice, one molecule of mercy. And yet you act, like there was some sort of rightness in the universe by which it may be judged:
- Yes. But people have got to believe that or what's the point?" Hogfather - Terry Pratchet

É verdade. A Justiça, a Verdade, o Bem, o Mal e tantas outras "coisas" não são senão histórias que nos contamos a nós próprios.

E se o são, de que servem?

Servem para compreendermos um mundo que nos seria incompreensível de outro modo, para aprendermos lições inexplicáveis de outras formas...

"Humans need fantasy to be human. To be the place where the falling angel meet the rising ape" Hogfather - Terry Pratchet

E é verdade. O que nos distingue dos macacos é isto mesmo. Conseguimos explicar o mundo aos nossos netos através de histórias. Sejam elas a Bíblia, a Cinderela ou um hino nacional. E assim as gerações seguintes partem mais à frente que nós partimos. E chegam mais longe que nós chegámos.

"Fairy tales are more than true — not because they tell us dragons exist, but because they tell us dragons can be beaten. " - G.K. Chesterton

8 comentários:

jfd disse...

Fiquei espantado com esta posta!
Vinha aqui escrever no Yes We Can e fico surpreendido quando vejo o São Jorge em luta contra um Dragão ("quer-se" dizer, penso eu!).
E depois leio a posta do Salgado. Não percebi. E leio de novo com mais atenção. E começo a pensar; quem é o Terry Pratchet? Que mensagem quer transmitir o Salgado? E quem é o Chesterton?
Leio outra vez.
Acho que é a primeira vez que o Psico que me leva para o lado poético da coisa...
Tou à vontade. Não há nada para concordar, discordar, para debater ou para procurar contraditório!
Principalmente o 6º parágrafo, deixa-me com um sorriso, recordo-me de estórias fantásticas e realmente do que elas nos ensinam. A História Interminável, A Rainha do Gelo, Bambi, Moby Dick, Pinoquio, Papuça e Dentuça, Don Quixote...
Obrigado Salgado :)

jfd com um sorriso estampado

José Pedro Salgado disse...

Terry Pratchet é um autor britânico de quem gosto muito.

G.K. Chesterton era um escritor britânico do princípio do século passado cuja obra não conheço, mas que dotou-nos com pérolas de sabedoria como esta.

Já devias saber que os meus posts são mais out there

E não tens de quê.

Paulo Colaço disse...

Grande posta, Zé Pedro.
De facto, este psico está muito para além do que apenas política.

"E assim as gerações seguintes partem mais à frente que nós partimos. E chegam mais longe que nós chegámos."
- Dar balanço aos outros, integrá-los, partilhar, eis a fonte de todas as histórias deste jaez.

"Fairy tales are more than true — not because they tell us dragons exist, but because they tell us dragons can be beaten."
- E lá voltamos à história do avô Colaço: mais importante que acreditar em algo é, simplesmente, ter a capacidade de acreditar!

Tiago Sousa Dias disse...

Confesso que deixei este post para trás até ter vontade de o ler com atenção devida. Finalmente consegui e valeu a pena.

As histórias que me foram contadas não valem tanto pela história, mas pela pessoa que mas contou. Essa sim inesquecivel.

Mas há mais coisas que nos distinguem dos macacos, eles não bebem coca cola. O nosso dia-a-dia, quero eu dizer, não permite que tenhamos o discernimento necessário para aplicar o conhecimento que temos. Ou seja, racionalmente o homem parte de geração em geração com mais sabedoria e mais à frente de facto. Em termos emotivos e de sentimentos, os impulsos serão eternamente os mesmos. O amor e o ódio existirá sempre tal como o conhecemos hoje.

Paulo Colaço disse...

"As histórias que me foram contadas não valem tanto pela história, mas pela pessoa que mas contou. Essa sim inesquecivel."

É isso mesmo, Tiago!

jfd disse...

"[...]Mas há mais coisas que nos distinguem dos macacos, eles não bebem coca cola."

Tiago Sousa Dias, Fevereiro 2008

:)

José Pedro Salgado disse...

E porque não bebem os macacos coca-cola?

Porque a ideia das histórias inclui a possibilidade de, interiorizando as experiências, podermos prever o futuro.

Sim, os humanos podem prever o futuro, e somos os animais que o fazem com mais exactidão, porque podemos construir raciocínios de "se", como por exemplo:

"Se a Coca-Cola está associada a uma ideia (seja ela um sabor, uma imagem, ou uma qualquer outra sensação apriorística apreênsível) eu vou gostar de a beber."

Não é qualquer animal que consegue olhar para algo que vai ingerir e prever que vai gostar, com base em experiências anteriores.

E isto é o que se passa com as histórias. Concretamente, é o que se passa quando um estranho nos aborda e nos lembramos o que aconteceu ao Capuchinho Vermelho quando falou com o Lobo Mau.

Ou quando estamos perante uma escolha que inclua a possibilidade de um comportamento reprovável, e nos lembramos da dicotomia recompensa imediata/recompensa eterna da Bíblia.

Tiago Sousa Dias disse...

Zé:
Porque a ideia das histórias inclui a possibilidade de, interiorizando as experiências, podermos prever o futuro.

Esse é o ensinamento e é essa capacidade que nos distingue de todos os outros animais. Também é isso que torna especial quem nos ensinou; porque fez parte da nossa evolução.
Em última análise todos somos especiais porque todos ensinamos e todos aprendemos diáriamente