terça-feira, outubro 03, 2006

Deus tem maus tradutores...


A comunidade amish dos EUA descende de cristãos suiços-alemães, conta 180 mil pessoas. São protestantes de origem anabaptista, pacíficos e vivem à margem do progresso, sem electricidade, telefone, televisão ou automóveis.
Subsistem com a agricultura e o artesanato, deslocam-se em cavalos. Até 1972 as crianças aprendiam as letras em casa, ano em que uma decisão do Supremo Tribunal tornou a escola obrigatória até aos 14 anos.
As mulheres vestem-se como no século XVII, com vestidos compridos, um avental branco e os cabelos escondidos num chapéu branco. Os homens têm fatos pretos, camisa branca e usam um chapéu preto de abas largas. (In Público)

Será que é Deus que obriga este povo ao obscurantismo? Ou será que, como sempre, são os seus representantes que querem um povo pouco esclarecido e nada exigente que controlem mais facilmente?

19 comentários:

Paulo Colaço disse...

Eis um comentário totalmente despropositado que serve apenas para manifestar regozijo: este psicoblog atingiu esta manhã a marca mítica dos 200 comentários...

Carla Fernandes disse...

Pois, neste caso, já que esta comunidade vive no obscurantismo, é mais um "o que os olhos não veêm o coração não sente", logo se esta população não vê o que se passa no resto do mundo, não se poderá indignar com a situação em que se encontra, podendo assim ser manipulada ao prazer dos seus representantes. É triste...

Lisete Rodrigues disse...

A nós, que nos sentimos 'nus' se saímos de casa sem telemóvel, causa-nos estranheza pensar numa comunidade que vive ainda com os hábitos do séc. XVII.
É óbvio que também a mim me faz confusão. Mas porque não aceitar o 'mundo', talvez pobre no sentido material, mas, no entanto, rico em tudo aquilo que se vem perdendo neste nosso mundo cheio de inovação: valores?!
Enquanto lia o post do Colaço, a memória levou-me muito rapidamente aos tempos de criança, pois também cheguei a andar descalça e a subir as árvores. Vi tirarem leite de uma vaca (apesar de nunca ter conseguido fazê-lo) e lembro-me dos dias de Inverno em que era hábito faltar electricidade e andarmos, por isso, à luz das velas. E sabem que mais: a minha infância foi muito feliz!
Então que direito temos nós de julgar alguém pelas escolhas que faz, sobretudo quando estas não esbarram com a nossa liberdade?

Não sei se teremos legitimidade - até pelo mundo de guerras e ódios em que vivemos - para criticar e julgar o 'mundo' pacífico desta comunidade...

Paulo Colaço disse...

Sei que nao percebeste mal o sentido das minhas palavras Lisete, mas ainda assim quero acrescentar o seguinte:
é salutar viver-se na pureza dos actos, na singeleza dos sentimentos, na plenitude da relação com a natureza.
Mas todo este pacifismo não será artificial? Não será instigado por quem quer controlar?
E será que é saudável fechar os olhos para não ver a violência que grassa à nossa volta?

Mas percebo as tuas palavras, até porque cresci no campo. Também nunca tirei leite. Nenhuma vaca me deu confiança para mexer onde nao era chamado! ehehehe

xana disse...

O que eu sei é que nós (portugueses) não somos uma comunidade amish mas comportamo-nos como tal... viva o obscurantismo.

Lisete Rodrigues disse...

É obvio que sim Colaço. Em qualquer sistema, por mais ingénuo que nos pareça, haverá sempre alguém a querer controlar. E ainda que saiba que tu também percebeste as minhas palavras, acrescento, agora, que aquela foi a tentativa 'ingénua' de analisar a coisa... lolol

ps: As vacas eram muito espertas Colaço!!!

Paulo Colaço disse...

Sim Xana, tens razão: somos amish à nossa maneira!

E sim, Lisete, as vacas foram espertas, mas nao sabem o que perderam...
;)

Big Mamma disse...

Estas comunidades têm o seu encanto e a sua importância. É preciso dar refúgio aos que querem fugir da vida agitada, dos negócios, do dinheiro, da guerra.
É preciso dar um cantinho de isolamento a quem simplesmente quer paz!

O que já nao é normal, é que se fuja ao conhecimento! Que se negue esse conhecimento às crianças, que elas nasçam e cresçam "coxas".
O acesso à informação é vital para o crescimento interior do homem!
Nao se pode ensinar uma criança a ler a escrever e pensar que já lhe demos tudo na vida do que eles precisam!

Big Mamma disse...

bem, faltou dizer que concordo com tudo o que disseram aqui, embora algumas coisas pareçam contraditórias!

e, é verdade, Paulo: não sejam lascivo quanto às vaquinhas ehehehe

Rita Nave Pedro disse...

Não posso deixar de referir que Deus não obriga ninguém ao obscurantismo, pois ele mostra-nos a luz e não as trevas e “são os seus representantes que querem um povo pouco esclarecido e nada exigente que controlem mais facilmente”.

Infelizmente, estamos repletos de exemplos de manipulação humana aos mais variados níveis. Esta é mais uma das muitas formas de limitar a liberdade humana com a falsa visão de ser “salutar viver-se na pureza dos actos, na singeleza dos sentimentos e na plenitude da relação com a natureza”.

Não cresci no campo, mas toda a minha vida tive contacto com a realidade das aldeias portuguesas, onde ainda hoje existem grandes défices de desenvolvimento.

A felicidade alcança-se nas coisas simples e o excesso de informação que hoje temos também nos limita por não sermos capazes de absorver tudo o que nos rodeia, nomeadamente situações de “pacifismo” num mundo de guerra!

xana disse...

E, por acaso, a igreja não é um dos maiores exemplos de manipulação humana da História?

Paulo Colaço disse...

Se entenderes a Igreja como instituição de homens que têm o poder absoluto de interpretar a "palavra do Senhor", então sim: é!

Marta disse...

Terá "A Villa" tido alguma influência nas tuas palavras, Paulo? Sim, não consigo deixar de associar os amish àquela comunidade isolada do filme do M. Night Shyamalan. É como diz o ditado: "Cego é aquele que não quer ver". E estas comunidades socialistas primitivas fazem-me lembrar o guardador de rebanhos, Alberto Caeiro (in Há metafísica bastante em não pensar nada):
"(...)
O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Que idéia tenho eu das cousas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei.
Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar.
(...)
E por isso eu obedeço-lhe,(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?).
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora."

Paulo Colaço disse...

Quase me deixarias sem palavras, estrela-do-mar, não fosse o caso de recorrer à sempre oportuna tirada do Pessoa: "o mito é o nada que é tudo".

Eu não acredito em Deus, mas acredito na fé de quem acredita! No que eu não acredito é na bondade dos "intérpretes" de Deus...

A personagem do poema é que a sabe toda: não precisa de intérpretes! Aliás, não precisa sequer de pensar em Deus para o sentir próximo!

E o mais espantoso é que eu acho que ele nem sequer se interessa se um dia lhe disserem que deus não existe!

Vasco Neves disse...

Parabens belo blog e pelos textos aqui publicados!
Tem gerados boas réplicas!
Sobre este tema, deixem-me acrescentar o seguinte: os EUA geram climas propícios a estas comunidades, porque sao um povo muito fechado em ideias puritanas. Os americanos não sao tao ambertos quanto os europeus!

é a minha opinião!

Cumprimentos

José Pedro Salgado disse...

Concordo com muitas opiniões aki escritas (nomeadamente nos comments da Lisete, da Rita e a primeira parte do que disse a Big Mamma), pelo que não as vou papaguear.
Só queria acrescentar que os Amish não são assim tão isolados quanto isso. Há coisas que precisam do mundo exterior e por isso têm contacto com ele. Pode parecer insuficiente, é certo, mas a partir de uma certa idade ninguém os prende lá, podem vir(como já muitos fizeram) viver para o século XXI.

Big Mamma disse...

Caro José Pedro,
obrigado por essa informação, que eu desconhecia.
Quanto à "primeira parte" do que eu disse, ela tem de ser entendida com a segunda parte:
é com que haja espaço para a fuga, para a "calma contemplativa" e contacto com a natureza, mas não é saudável que essas comunidades privem os seus membros mais novos do conhecimento.

saudações

José Pedro Salgado disse...

Sem querer parecer mt filosófico, em bom rigor todas as sociedades privam os mais novos de mts coisas. Pais católicos criam filhos católicos, pais ateus, filhos ateus. É um exemplo ao qual há excepções, óbvio (mas tb as há c os Amish, cm referi).
Pode-se argumentar que os Amish têm toda uma cultura orientada para um lado, ñ só uma família, mas nós tb temos. Daí existir a "civilização ocidental", e td o k ela implica, a "civilização islâmica", a "civilização oriental".
Claro que podemos dizer k a nossa civilização é mais vasta, globalizada até, mas td isso são características de um tipo civilizacional que escolhemos seguir.
Claro k podemos dizer que a nossa é aceite pl maioria, mas a maioria ñ pode ditar, e d kkr maneira a discussão trata de qualidade e ñ de quantidade.

Assim, se os Amish são felizes, cada um de acordo com a sua consciência.

Anónimo disse...

a amish deram uma liçao ao mundo com o perdão à familia ao autor dos homicidios nos EUA...