terça-feira, março 04, 2008

Cada macaco no seu galho?


Sem grandes surpresas, Dimitri Medvedev ganhou as eleições russas com cerca de 70% dos votos.



O sucessor de Putin, é um tipo de político muito diferente do que a Rússia está habituada. Pela primeira vez em muitos anos, o Presidente russo não é nem um tecnocrata, nem um revolucionário, nem militar, nem um aparelhista, nem um ex-KGB.



Empresário de carreira a quem se reconhece um tipo de discurso muito liberal (comparado com Putin), Medvedev continua a dever ao antigo Presidente (e futuro Primeiro Ministro) a sua ascenção política.



Os objectivos de Putin de re-centralizar a autoridade estadual, consolidar a economia, bem como de desenvolver uma política externa autónoma foram alcançados em grande parte com o auxílio de Medvedev, é certo. Mas, por isso mesmo, a actual situação da Rússia permite-lhe actualmente uma política de uma maior abertura e liberalização.

É um facto que com Putin como Primeiro-Ministro, há que esperar pela inevitável repartição de poderes para saber até que ponto Medvedev manda ou é mandado, mas como perguntava um jornal libanês:

What if Russia's new puppet starts pulling the strings?

25 comentários:

Francisco Castelo Branco disse...

Vai mudar alguma coisa com Medvedev.
É o que acho!

Acho que vamos ter uma Russia mais aberta.
Interna e externamente...
Nas relações com a Europa e os EUA, não me parece que nasça ali um foco de conflitos.
Antes pelo contrário.
A (falsa) saída de Putin vai nos levar a um novo contexto na cena internacional...
Com uma Russia mais identificada com os valores Ocidentais e a querer ajudar à estabilização da paz mundial....

Internamente, não conheço bem a situação russa, mas vou perguntar ao Yevgueni Mouravitch, pode ser que ele nos dê uma resposta....

Francisco Castelo Branco disse...

Acham mesmo que a Russia de Medvedev será a de Putin?

jfd disse...

Ora, um dos problemas, como lia eu na Bloomberg, é que tradição é que quem manda é quem se senta no Kremlin. Embora seja função do PM a importante politica orçamental e a sua implementação... Será que vai vingar a tradição? Ou será que o protegido vai respeitar o protector?

Os especialistas dizem que, apesar da relação profissional de há mais de 20 anos, o novo Presidente não estará no mesmo comprimento de onda do PM por muito tempo...

A ver vamos, o psico cá estará para monitorizar LOL

baseado em
http://www.bloomberg.com/apps/news?pid=20601087&sid=adGIc0lHFdeY&refer=home

PS - infelizmente não consegui ler o artigo de opinião :(

Uma coisa é certa, este século verá a inversão da Rússia... De ex-super potência, a super potência. Será assim?

Francisco Castelo Branco disse...

Não concordo que a Russia volte a ser uma potência....

Ainda por cima , com a ascensão da China...
Até porque o politico com o qual a Russia poderia ser levada a "potencia" acho que era Putin...

E a mim parece-me que o seu reinado acabou, ou está prestes a terminar....

jfd disse...

Olha, sinceramente, acredito que possa ser... Aliás que venha a ser... Eu quando penso em Russia penso em Torneira de Gaz da Europa...

Nélson Faria disse...

Nem mais Jorge. A Rússia de Putin tem jogado cartadas certeiras na geo-política.

Isto é feeling, nada de conhecimento: penso que Medvedev vai querer começar a mandar. Não sei é como funciona o aparelho russo, que me cheira ser muito reacionário e mesmo perro no que toca a inovações.

É ver o que se passa.

Vermouth disse...

Não creio que num futuro próximo, a Federação Russa opte por uma política de maior abertura face ao exterior ou por liberalização económica, como vemos hoje em dia no capitalismo ocidental. Até porque, como diz o velho ditado russo: "há bons países para viver, maus países para viver e há a Russia". Contudo depois deste "processo eleitoral", verificamos que a estratégia de Putin é para manter, ainda que este agora, tenha de dividir os comandos da potência internacional que é a Russia, com o amigo Medvedev. Que venham os próximos capitulos, já a partir de Maio...

Paulo Colaço disse...

Vejamos: se os poderes que Medvedev tem hoje são os mesmos que Putin tinha ontem, então a pergunta é "será que os vai querer exercer?".

A minha resposta: não creio! Se Putin suspeitasse que Medvedev quisesse ser presidente "à séria", não o teria escolhido para sucessor.

Em todo o caso, concordo com o JFD e subscrevo o Né: Putin tem jogado cartadas certeiras.

Diogo Agostinho disse...

Subscrevo também!

Putin arranjou um fantoche para mandar!

Mas...

Às vezes quando se sente o poder nas mãos, pode virar-se o feitiço contra o feiticeiro..
O novo Presidente russo pode gostar do lugar, achar piada a mandar em Putin e ir contra a sua vontade.

Uma questão bem interessante de ser acompanhada!

Francisca Soromenho disse...

Não estou certa que Dmitri Medvedev será um fantoche de Putin. Já há dezasseis anos que está debaixo da sua asa, mas desconfio que ainda vamos todos ter muitas surpresas com esta nova figura.
Com a bagagem que adquiriu, principalmente nestes últimos nove anos, e uma política que se situa dubiamente no "liberalismo controlado", quem sabe para que lado penderá. Seguirá as ideias de Putin e dos três partidos que apoiam esta dupla, ou encerra este empresário de natureza calma planos próprios para o futuro da Rússia?

Esperaremos para ver e, entretanto, que nos vamos informando!
Recomendo que se leia:
http://www.russiaprofile.org/resources/whoiswho/alphabet/m/medvedev.wbp

Adriana disse...

Putin arranjou alguem para receber as balas por ele...(forma de expressao). Putin é frio, calculista e premedita os actos. Acredito que esta sucessao não é inocente.
Não concordo que a Russia volte a ser uma grande potencia. Acredito sim que a China continue em fraca ascensao e que a India tambem ira aparecer em franca ascensão.

Vermouth disse...

Não é preciso acreditares, pois a Federação Russa, como Estado soberano nunca deixou de ser uma grande potência ;)

Francisca Soromenho disse...

Adriana,
Franca ascensão económica, em ambos os países. Ainda que conceito de potência mundial se continue a prender com o poder que um país tem sobre a política internacional - aonde estas nações são beneficiadas pela extensão do seu território - mais que categorizar potências, tentamos hoje em dia avaliar o verdadeiro desenvolvimento dos países, que é, logicamente, tomado como o conjunto de factores não só económicos e militares como também sociodemográficos, sendo aqui que os três países de que falas pecam.
De facto, a Rússia é o país, dos três referidos, com o IDH mais elevado (seguido pela China e pela Índia; esta que, ainda que seja o com o IDH mais baixo, é o que mais se tem desenvolvido nos últimos cinco anos) - de acordo com o relatório de 2007 das Nações Unidas.
A seguir aos Estados Unidos, (considerada a única hiperpotência) Rússia, a China e a Índia são as principais superpotências em ascensão. A Rússia nunca deixou de ser uma das principais potências do Mundo (tendo efectivamente abrandado o seu crescimento a seguir à Guerra Fria), mas o seu poder militar, parcialmente herdado da URSS, vai crescendo. Não esquecer que é dos países mais ricos do Mundo no que toca a recursos naturais e energéticos.
Estima-se que, se a China continuar com o seu ritmo de crescimento, terá por 2038 ultrapassado economicamente os EUA. Mas e a Rússia? Medvedev tem em mãos o maior país do Mundo, que se tem vindo a preparar em todos os campos (político, social e económico) nestes últimos anos. Esperamos para observar se "começa a render".

José Pedro Salgado disse...

A Rússia já é uma super-potência. O seu poder no âmbito internacional e o seu peso condiciona muitas decisões internacionais.

Como já referi também, a política de Putin passou muito pela independência da Rússi a nível de política externa.

Um escritor de origem russa, de seu nome Gary Shteyngart, deu uma entrevista ao jornal espanhol "La Vanguardia" em que classificou a Rússia como um gigantesco fornecedor de gás e petróleo, mas de resto um país morto, dando como exemplo a baixa taxa de natalidade.

José Pedro Salgado disse...

Acrescente-se que, segunto o Financial Times, Medvedev já anunciou algumas políticas de linha dura, amiaçando cortes na exportação de gás para a Ucrânia e uma repressão aos protestos resultantes das eleições.

http://www.ft.com/cms/s/fe8b2afc-e8ff-11dc-8365-0000779fd2ac.html

José Pedro Salgado disse...

Diga-se também que a política externa russa está condicionada pela ligação das suas taxas de juro com o ocidente, pelo que um colunista do FT diz que a Guerra Fria não voltará.

http://www.ft.com/cms/s/0/380bda96-e93d-11dc-8365-0000779fd2ac.html


Por outro lado, Gary Kasparov diz no Wall Street Journal que, não obstante a vitória esmagadora nas eleições, a oposição não se calará.

http://online.wsj.com/article/SB120459318056409113.html?mod=opinion_main_commentaries

José Pedro Salgado disse...

Aconselho aos interessados a leitura deste artigo do London Times, escrito pelo ex-Presidente da URSS, Mikhail Gorbachev. O artigo chama-se "Memo to Medvedev:Democracy counts" e aconselha o Presidente russo a tomar medidas de fundo para reformar o sistema político russo através de uma democratização do sistema eleitoral.

http://www.timesonline.co.uk/tol/co
mment/columnists/guest_contributors
/article3485394.ece

José Pedro Salgado disse...

É oficial: temos o primeiro prisioneiro da era Medvedev.

Maxim Reznik, líder do partido Iabloko de São Petersburgo iniciou uma greve de fome em protesto pela sua prisão a 2 de Março (noite das eleições) por desrespeito e resistência à autoridade.

http://www.courrierinternational.co
m/article.asp?obj_id=83369

Inês Rocheta Cassiano disse...

Francisca, que me dizes então a esta surpresa de Medvedev que o Zé Pedro mencionou?
Continuas a achar que não é um fantoche de Putin e que este não será um Presidente da República sombra? Aliás, tal nem será preciso pois aponta-se para PM, certo?
Medvedev é um prolongar dos mandatos de Putin.

Francisca Soromenho disse...

Querida Inês,
Deixei a questão em aberto. É certo que Putin está apontado como PM, e que Medvedev é nada mais que seu protegido. Sendo fantoche ou não sendo, coagido pelos partidos ou não, apenas disse que tem a bagagem para pôr a Rússia a render.
Até agora a sua política é uma extensão de Putin, mas quem me garante que o continuará a ser?

Vermouth disse...

Garantem-te os oligarcas russos, as suas empresas e os seus interesses... ;) Isto porque, pensarmos que Vladimir Putin liderou e governou a "Mãe Russia" por si só, não cedendo Poder a outras figuras, é um tremendo erro e uma manifesta impossibilidade.

Francisca Soromenho disse...

Nenhum político actua nos seus interesses particulares assim como nenhuma pessoa pode viver assim. Penso é que há a possibilidade de Medvedev não ser mais fantoche do que Putin o foi, também ele controlado pelos«(...)oligarcas russos, as suas empresas e os seus interesses», mas não controlado directamente por Putin. Como escrevi no meu comentário passado, «Sendo fantoche ou não sendo, coagido pelos partidos ou não, apenas disse que tem a bagagem para pôr a Rússia a render.» Naturalmente Medvedev seguirá a política de Putin, mas totalmente? Não enfrentará ele novos desafios e a Rússia mostrará novas necessidades? Não imprimirá a sua marca na política russa?
Com uma preparação totalmente diferente de Putin, não seguirá Medvedev as suas próprias ideias, dentro do que lhe é permitido?

José Pedro Salgado disse...

Ora aí está.

Um dos principais motivos porque a doutrina diverge quanto a Medvedev passa por aí. Putin disse que tomaria certas medidas com certos objectivos. Na sua maioria, as medidas estão tomadas e os objectivos atingidos. Fica agora a questão:

Será que uma continuação da política de Putin implica continuar com uma política igual à de Putin, ou passará precisamente por uma implementação de outro tipo de medidas?

Paulo Colaço disse...

Boa evolução desta discussão deste a minha última visita.

Vermouth disse...

Francisca lembra-te do que diz a teoria da Public Choice, pois é contrária ao que dizes de que "Nenhum político actua nos seus interesses particulares".
.
José, quando perguntas: "Será que uma continuação da política de Putin implica continuar com uma política igual à de Putin, ou passará precisamente por uma implementação de outro tipo de medidas?", considero que se manterá uma continuação das políticas de Putin. Internamente a postura do Kremlin não deverá mudar, nomeadamente em questões relacionadas com a Tchéchénia, com a exploração de recursos (...) esperando-se sim no futuro, um apoio à natalidade, visto que a Federação Russa será em breve a potência mundial, com a maior crise demográfica. No plano externo penso que Medvedev não irá mudar uma virgula ao que foi defendido por Putin e que a diplomacia Russa manterá a mesma postura no Conselho de Segurança da ONU. Mas cá estaremos para ver, até porque não há certezas...