quarta-feira, janeiro 16, 2008

Religião Vs. Política - Vale cada uma por si?


"A relação entre religião e política não é estática e nunca estará definitivamente resolvida. Ninguém se atreve a dizer que a distinção entre César e Deus, entre o temporal e o espiritual, entre política e religião, não seja libertadora.

Quem ousará defender, explicitamente, a teocracia? Esta ruptura é benéfica para o poder político porque evita que ele se feche sobre si mesmo de forma totalitária. É benéfica também para a Igreja porque a obriga a uma autodelimitação.

Mas só a cegueira ideológica não vê as fraquezas de um regime de total "separação".

Haverá sempre fricções entre religião e política e não se vê como poderia ser de outra maneira. Mas esta tensão é benéfica. Evita que o Estado se reduza a um papel tecnocrático, de pura gestão, e que, por outro lado, a Igreja se feche no culto e na sacristia.

No que diz respeito a Igreja católica, parece-me que a participação no debate público implica uma mudança muito forte de mentalidade. É evidente que há, na Igreja católica, uma hierarquia que ofende o espírito democrático. Além disso, os últimos dois Papas, João Paulo II e Bento XVI, desenvolveram uma palavra muito autoritária e um discurso de cima para baixo.

As Igrejas não têm de se calar, mas devem encontrar um modo de falar que permita fazer ouvir aquilo que julgam importante". in Público, Frei Bento Domingues

O texto supra citado são excertos de um artigo publicado por Frei Bento, o qual faz o favor de ser meu amigo. O seu teor suscita a questão sempre actual da relação entre a Política e Religião. Até que ponto são ambas dissociáveis, compatíveis ou complementares?

O espírito crítico do autor relança uma discussão que a mim me é particularmente cara. Isto é, a sociedade pode ser gerida apenas com um poder laico? Ou, por outro lado, precisa de uma outra dimensão?

17 comentários:

Goreti Martins disse...

Para mim é simples: a igreja/religião seja ela qual for nada tem a ver com politica e vice-versa.

Paulo Colaço disse...

A Igreja Católica está intimamente ligada à História do nosso País.
Foi um Papa quem nos autonomizou "oficialmente" de Espanha, foi a Igreja quem ajudou a aumentar, defender, povoar e administrar o território, foi a Igreja que se lançou ao mar para connosco fazer a gesta e espalhar a nossa cultura (língua e valores), etc.

Mas isso não a torna credora de especiais direitos de influência sobre o rumo do Estado.

Já nos chegam as homilias dos domingos eleitorais em que padres de província (e alguns urbanos) decidem quem é Presidente de Junta.

À Igreja reconheço direito de intervenção, mas não é em nada diferente daquele que reconheço a uma qualquer associação de produtores de vinho perante a decisão governamental de baixar a taxa de alcoolemia.

Tânia Martins disse...

Cara Inês não posso deixar de dizer uma coisa: só podias ser mesmo tu a puxar este tema para debate, aliás se não viesse de ti não teria piada nenhuma!

Acho que sim senhor o Estado necessita de uma outra dimensão para o exercício do seu poder a fim de se impor limitações a esse mesmo poder, mas não a Igreja, já não estamos presente uma religião oficial de um Estado, a Igreja Católica não tem de ser mais do que as outras Igrejas. Além disso o Estado não precisa de ter uma dimensão moral ao seu lado pois o próprio Estado deve estar encarregue de possuir essa mesma dimensão. Têm de ter sim uma dimensão consultiva e fiscal!

Ah uma coisa que me faz uma certa urticária, acho que a Religião Católica ainda não se habituou que já não têm o poder de séculos anteriores, aquilo de explorarem o povo já passou e agora têm de se resumir a assumir o seu papel perante todos os seus crentes, afinal “cada macaco no seu galho”!

Inês Rocheta Cassiano disse...

Meus queridos amigos,
de certo modo já estava à espera dos comentários que li. No entanto, parece-me que estão a ter em conta a minha postura enquanto católica e não o teor do post. O que eu pretendi trazer à discussão foi a possível relação entre o exercício do poder político e o exercício do poder espiritual.
No meu ponto de vista, o Estado na sua organização não se pode resumir apenas a uma máquina administrativa e fiscal. O Estado é o primeiro garante do bem estar social, económico e cultural, entre outros, dos cidadãos. Ao fazê-lo, tem que se reger por princípios e valores que tenham em conta a dignidade da pessoa humana. Tal como penso que o Estado não tem que interferir na esfera religiosa (qualquer religião), também penso que a Religião não deve intervir activamente no exercício da política.
Se eu não estivesse do contra, isto para mim nem tinha piada!

Manuel_Nina disse...

"O Estado é o primeiro garante do bem estar social, económico e cultural, entre outros, dos cidadãos. Ao fazê-lo, tem que se reger por princípios e valores que tenham em conta a dignidade da pessoa humana."

Com certeza, concordo, mas e quem diz que esses valores têm de vir da Igreja Católica ou o seu padrão Moral? Não devemos antes apostar num estado Ético, epistemológico e responsável, livre do paradigma cristão e de muitas das suas ideosincrasias?

Penso até que ainda estamos longe da separação que devíamos ter. Vejamos os feriados catolicos (já nem digo o Natal ou a Páscoa, transversais a outras religiões e profundamente institucionalizados na nossa sociedade), refiro-me ao Corpo de Deus, à Imaculdada Conceição e ao dia de Todos os Santos, porque continuamos a ser obrigados a celebrar estes dias, porque é que o comércio e as instituições bancárias encerram a estes dias? Antes prefiro que me dêm mais dias de férias!

Um estado laico não implica um estado amoral ou tecnocrata!

Paulo Colaço disse...

Caro Manuel Nina, bem-vindo ao Psico.

Inês, fico descansado... ufff!

jfd disse...

Por mais que eu queira Inês, o poder tem de ser laico. Nem que seja pelo facto de que, ao se dar um tratamento especial à nossa religião, ter-se-ia de abrir de igual forma a todas as outras. E nós, tacanhos como somos, não damos um tusto e meio por muitas delas.
O que o Manuel diz faz sentido.
Para mim o tempo das cruzadas acabou. Embora as hajam, de uma forma ou outra, para mim acabou. Não vou converter ninguém. Não me quero também impôr a ninguém.

Margarida Balseiro Lopes disse...

Apesar de não ser crente em Deus, aprecio e orgulho-me da forma convicta e sincera com que defendes aquilo em que acreditas, Inês!

Concordo que a política não é, nem pode ser, axiologicamente neutra. É essencial que a política não se torne maquiavelicamente amoral. Há valores como a justiça, a liberdade, a dignidade humana que têm que ir sempre de mãos dadas com a Democracia. Isto não significa que ao colo tenha que vir a religião. A Inquisição, ainda que muito remota, mostra-nos que a Igreja Católica nem sempre pautou a sua actuação pela defesa e garantia da dignidade humana.

Defendo que deve haver uma separação entre Estado e religião, queiramos tirar os carcomidos crucifixos que ainda subsistem em muitas escolas portuguesas!

Maria Pereira de Almeida disse...

Respondendo a última pergunta deixada pela Inês. Nao, nem o estado, nem as sociedades, nem as pessoas precisam de uma outra dimensao. Mesmo a moral, ja varias vezes referida nesta discussao, pertence nada mais nada menos que à nossa capacidade racional. Procurar um fundamento exterior e uma manobra involuntaria e inteligente do nosso mecanismo de sobrevivencia de forma a proteger a nossa especie; isto porque parece que por vezes nos pomos a pensar sobre o porquê da vida e coisas afins... Relativamente ao respeito pela dignidade humana, esta pertence a esfera do humano e nao a nenhuma outra instancia de legitimaçao que nao o proprio ser humano.

Inês Rocheta Cassiano disse...

Caro Manuel Nina,
agradeço o seu comentário e permita-me que esclareça algumas questões por si suscitadas:
Ponto 1 - eu não sustento, nem defendi que os valores tenham que vir da Igreja Católica. Alías, até tenho a sensação que se está a confundir Religião e Catolicismo. Apesar de ser católica, o que pretendi trazer à discussão foi a compatibilidade ou a dissociação entre a prática política e religiosa. E isto, do meu ponto de vista, pelo menos, não significa a ingerência de uma na outra.
Ponto 2 - Quanto à questão de se sentir "obrigado" a celebrar feriados católicos, não deixa de ser absurdo que um Estado que se reclama laico, continue a consagrar no seu calendário os feriados maioritariamente católicos. Agora diga-me, isso é uma imposição da Igreja Católica? Ou mais, é uma imposição da Religião? Sinceramente acho que não. O actual Estado Laico continua a não conseguir descolar-se do contributo que o Cristianismo deixou ao nosso país, designadamente nas áreas do ensino, da saúde e porque não dizê-lo do nosso património arquitectónico (o nosso Parlamento é um convento beneditino).
Ponto 3 - O Estado laico, como eu o vejo, também não tem que ser um Estado amoral ou tecnocrata. O Estado existe para servir as pessoas e quando reduzirmos o seu papel a uma mera máquina de gestão de recursos humanos e financeiros (que uma boa aplicação informática pode fazer), algo vai muito mal.

Querido JFD,
concordo contigo quando dizes que o Estado deve tratar em pé de igualdade todas as religiões. Porém, permite-me a seguinte pergunta. Em que é que a Igreja Baptista ou Evangélica ou qualquer outra, contribuem para o bem estar social? Talvez não saibas, mas a Igreja Católica desempenha por todo esse país fora, um trabalho invisível de apoio aos mais carenciados e àqueles que pouco ou nada têm. E falo por experiência própria. Finalmente, gostava de te dizer que também não quero converter, nem impôr-me porque se essa fosse a minha intenção, já tinha ido pregar para outra freguesia.

Querida Margot,
também concordo contigo quando dizes que Política e Valores devem andar de mãos dadas com a Democracia. Queria apenas dizer-te que a Inquisição uma página negra na História do Catolicismo e de Portugal. O Papa João II reconheceu e pediu perdão por isso. Isto por si só não justifica o mal que nessa altura foi feito. Porém, a Igreja é conduzida por homens e quem nunca pecou, que atire a primeira pedra.

Cara Maria Pereira de Almeida,
"Nem o Estado, nem as sociedades, nem as pessoas precisam de uma outra dimensão". Desculpe a franqueza, mas se não precisa, preciso eu. E muito boa gente que conheço. Nunca tome o todo pela parte. Discordo quando diz que a Moral pertence à capacidade racional, precisamente porque é na Moral que blindamos o nosso carácter enquanto seres humanos. Com todo o respeito pelo seu discurso, parece-me que tem pouco a ver que a discussão que eu suscitei. Mas todas as opiniões são bem vindas.

Tiago Sousa Dias disse...

Nenhuma religião deve orientar o poder como nenhum clube de futebol deve orientar o poder, como nenhuma empresa deve orientar o poder.
Coisa diferente é dizer-se que o Estado deve ser indiferente à religião. Pois aí vira-se a frase do avesso e, não querendo dizer o exacto oposto, nenhum Estado deve ignorar a religião, como nenhum clube de futebol, como nenhuma empresa.
Ou seja, a religião é das pessoas, não do Estado; mas a sua importância para um povo ou para uma minoria deve ser reconhecida pelo Estado que deve actuar com a consciência de que 1- existe a crença e 2- existem crenças.
Na minha modesta opinião as crenças minoritárias são mal tratadas em Portugal como na maioria dos países ocidentais. Basta relembrar que existe um regime jurídico diferente para o casamento consoante as religiões e já se percebe.
Por isso acho que é irrelevante a forma como a Igreja católica fala, no que diz respeito ao acolhimento que tem o Estado português que apenas deve manter-se a par e não acolher a Igreja católica como se de um filho se trata-se.
Pior seria, porém, se em vez de filho fosse visto como um Pai. Isso é que não.
Sou agnóstico by the way.

big mamma disse...

Um padre orienta a alma de um católico. Um Ministro das Finanças orienta-lhe a carteira.

Querer o contrário pode ser desastroso. Não que os padres não saibam orientar a carteira dos fiéis: fazem-no há séculos e na perfeição. Um Ministro das Finanças é que dificilmente consegue dar saúde às almas dos cidadãos...

Nélson Faria disse...

Eu gosto do Estado máquina que só intervêm quando precisa mesmo.

Sou agnóstico, com uma profunda educação católica apostólica romana. Para ser inteiro falta-se somente os sacramentos matrimónio e extrema unção. espero que ambos distantes e o primeiro soará sempre ao segundo ;)

É-me indissociável a noção de ética e moral humana sem integrar a moral judaico cristã. Sou profundamente laico mas não cego. Os valores que me guiam, a minha palavra amiga, os momentos de indecisão estão fortemente influenciados pela vivência que tive.

E reconheço a Bìblia como o livro mais sábio a que alguma vez recorri. Só li excertos do Corão, e sendo muito mais poético, não me marcou tanto como a Bìblia.

Mas isto vem de um agnóstico laico, que não gosta de ver o Estado prestar favores à Religião nem que esta tenha tratamento preferencial. Também não gosto da instituição por a considerar claustrofóbica.

P.S. ò Inês, a igreja católica apostólica romana não é a única religião activa na sociedade. Tenho umas duas comunidades protestantes na minha zona de residência bastante prolíferas em acção social, e a mesquita de lisboa também é exemplar na acção.

Maria Pereira de Almeida disse...

Cara Ines,
diz que o meu comentario é despropositado. Respeito tanto a sua opiniao como a sua religiosidade mas nao aceito nem uma nem outra. Eu limitei-me a reponder a uma pergunta que deixou: "Isto é, a sociedade pode ser gerida apenas com um poder laico? Ou, por outro lado, precisa de uma outra dimensão?" O que quis dizer é que enquanto cidada pertencente a uma comunidade politica nao precisa de qualquer outra dimensao que a racional para elegir os principios da sua acçao (se vai votar ou separa o lixo, por exemplo, nao precisa de consultar ou ter em consideraçao nenhum poder espiritual; assim como o Estado nao precisa de consultar nada mais que a vontade dos seus componentes para decidir). Se vem a desproposito responder a perguntas deixadas, entao peço imensa desculpa... Nao conhecia a regras de jogo! Termino com uma última consideraçao que espero nao ser despropositada... Pelas respostas que tem dado aos comentarios parece que ainda ninguem percebeu bem a discussao que a Ines pretendeu suscitar. Diz coisas como "Apesar de ser católica, o que pretendi trazer à discussão foi a compatibilidade ou a dissociação entre a prática política e religiosa. E isto, do meu ponto de vista, pelo menos, não significa a ingerência de uma na outra." Concretamente o que e que isto quer dizer? Mais uma vez peço desculpa por nao perceber (provavelmente a falta de capacidade e minha, ou nao...) mas, de qualquer forma, parece-me um pouco vazio...

José Pedro Salgado disse...

Lord Acton disse:

"Liberty is the prevention of control by others. This requires self-control and, therefore, religious and spiritual influences; education, knowledge, well-being."

Historicamente, o grande poder da Igreja sempre passou mais pela influência espiritual e psicológica que teve nos ocupantes do poder temporal.

Acredito sinceramente que uma teocracia católica é absolutamente contra os interesses da Igreja. Isso sim, fá-la-ia perder poder.

Inês Rocheta Cassiano disse...

Tiago,
agradeço o teu comentário e de uma maneira geral estou de acordo contigo quando dizes que as crenças minoritárias são maltratadas em Portugal. Isso remete-me para o tratamento dos pequenos partidos políticos. Não se trata o PSD como se trata o PNR, por exemplo. Mas regressando ao tema das religiões, a Igreja Católica tem uma posição de destaque devido à tradição histórico-cultural e ao profundo enraizamento na nossa sociedade.

Né,
relativamente ao contributo que dizes conhecer de outras igrejas, isso só abona a favor daquilo que eu defendo. Ou seja, as igrejas podem ter um papel complementar em algumas áreas de intervenção.

Cara Maria,
a minha religiosidade não está aqui em causa. Quando referi no anterior comentário que os seus argumentos estavam pouco relacionados com a questão que suscitei, não quis, de modo algum, desconsiderar as suas opiniões, que apesar de as não partilhar, merecem o meu respeito. Na minha maneira de ver as coisas, rejeito absolutamente a sua posição ao reduzir o Homem a um papel puramente racional, até me faz lembrar as posições defendidas por Descartes. Porém nesta matéria, sou kantiana, pois o Homem é um ser dual, dotado de racionalidade e de espiritualidade. Nesse aspecto, entendo que a Religião pode assumir um papel de provocar a reflexão.
Também permita-me que discorde quando diz que o Estado não precisa de recorrer a mais ninguém senão aos seus componentes para a tomada de decisões. Parece que estamos a cair na centralização do poder, no totalitarismo. Recordo-lhe apenas um episódio recente. Aeroporto, LNEC, CIP. E mais não digo.
Como vê Maria, uma coisa é certa, pelo menos nestas matérias estamos em campos opostos. Mas isso não quer dizer falta de capacidade, sua ou minha. Simplesmente há que saber respeitar a diferença.

Adriana disse...

Politica e Religião deviam funcionar em campos opostos mas todos sabemos que não é assim que se passa.

Ja vi muitas situuações em que os dois intervenientes tem relações promiscuas e no fim ganham os dois.

No meu entender não o devemos misturar.