quarta-feira, outubro 03, 2007

Células Estaminais


Até ao dia 30 deste mês de Outubro, terá lugar na A. R. o debate sobre Investigação em Células Estaminais (stem cells). Porque gostava de saber a posição dos psicóticos sobre o tema, deixo algumas indicações, que julgo poderem contribuir para um maior esclarecimento.


Células Estaminais - noção- "(...) células extraordinárias cujo destino ainda não foi "decidido". Podem transformar-se em vários tipos de células diferentes, através de um processo denominado "diferenciação". Nas fases iniciais do desenvolvimento humano, as células estaminais do embrião "diferenciam-se" em todos os tipos de células existentes no organismo - cérebro, ossos, coração, músculos, pele, etc." in bionet online


Existem alguns tipos de células estaminais, a saber: totipotentes, pluripotentes e multipotentes. Estes tipos variam em função do potencial das próprias células, as primeiras por estarem numa fase muito inicial podem transformar-se em qualquer tipo de tecido, enquanto que as últimas, num estado mais avançado de desenvolvimento apenas podem transformar-se em alguns.


De facto, as células estaminais são vistas pela comunidade científica como a possível resposta para curar muitas enfermidades.


Mas a Investigação deste tipo de células coloca alguns problemas de carácter Ético. Isto porque, se é possível encontrar células estaminais em individuos adultos, a verdade é que as células estaminais com máximo de potencial são encontradas em óvulos fecundados artificialmente (chamados embriões) e em fetos resultado de aborto (espontâneo, mas sobretudo provocado).


A necessidade legislativa deve definir assim se é permitido o estudo científico de fetos e embriões. E, no caso dos embriões, é ainda importante que se limite o número máximo de óvulos fecundados para cada casal, que recorre à inseminação in vitro. Isto para evitar que se fecundem óvulos exclusivamente para fins científicos.


Qual é a dignidade de um embrião? E de um feto?

Será justo "fabricar" embriões para investigação?

14 comentários:

Davide Ferreira disse...

Eu sei que pode parecer uma opinião contorversa, mas creio que em nome do progresso cientifico se possa passar por cima de algumas questões éticas, e esta é uma delas.

Na minha opinião, um embrião não têm que merecer a tutela da sociedade. Aquilo não é uma pessoa.

Se se "fabricar" e posteriormente "destruir" embriões unicamente para pesquisa cientifica para que aqueles que vivem hoje, e viverão no futuro possam ter uma vida melhor, creio que estamos no bom caminho.

Não creio que nos possamos dar ao luxo de dizer:
"Epá isto não parece correcto portanto não se faz mais pesquisa usando estes meios, que por acaso até podiam levar a cura de doenças da mais variada ordem..."

Se algum medico ou cientista quiser apresentar objecção de consciencia que o faça, mas que não se pare a ciencia no seu global por questões éticas desta ordem.

Relativamente ao feto estes já são protegidos, e apenas são usados os resultantes de abortos... se já estão mortos não vejo qual é o problema em serem usados pela ciencia.

Afinal de contas nós quando morrermos se não indicar-mos o contrario em vida os nossos orgãos e o nosso corpo servirá para fins medicinais/cientificos...

Bruno disse...

A verdade é que os fins não justificam os meios. Nunca! Por isso deveremos pensar o que fica pelo meio, no caminho para atingir um objectivo que é, sem dúvida, meritório.

Confesso que tenho ainda muitas dúvidas sobre este tema. Agradeço à Marta tê-lo aqui trazido e aguardo com expectativa as opinões que aqui serão depositadas.

jfd disse...

É feio responder com uma outra pergunta, mas a facilidade e a falácia da primeira leva-me à sua inversão; será justo deixar de fabricar embriões para investigação?

É um assunto cuja tendencia é ser delicado, mas sê-lo-á?

Que legislação quero eu para Portugal?
Uma legislação de vanguarda. Que seja pioneira tendo de mãos dadas a ética e a ciência. Fazendo de Portugal um porto de abrigo para o desenvolvimento da biotecnologia.

Sem paixões desnecessárias mas com as precauções imperativas.

Interesse da discussão deste assunto para a sociedade em geral? ZERO. Beneficios de uma legislação correcta e que faça com que o Estado cumpra o seu papel de regulador e de potenciador? MUITOS

Sejamos pragmáticos. Os Velhos do Restelo já eram :)

Goreti Martins disse...

As células estaminais são consideradas como 'células mestras' do sangue e do sistema imunitário, bem como de outros tipos de células e tecidos. São células relativamente indiferenciadas, que possuem a capacidade de se poderem desenvolver em diferentes tipos de células especializadas, tais como os glóbulos vermelhos, ou outros tecidos específicos do organismo. Devido a esta propriedade, podem ser utilizadas na terapêutica de determinadas doenças. Actualmente ajudam na cura de mais de 45 tipos de doenças (principalmente leucemias) e presentemente as pesquisas indicam que no futuro,se poedrão utilizar no tratamento de doenças como o Parkinson e o Alzheimer, traumatismos da coluna dorsal, diabetes, esclerose múltipla e outras.

A energia nuclear não é utilizada como um mal necessário? Porque não utilizar as nossas próprias células para um bem necessário?

Um dia que seja mãe vou concerteza e vou querer utilizar as nossas células estaminais!

Tânia Martins disse...

Bem quanto a este tema não tenho uma opinião muito vasta. Penso que não há mal nenhum na investigação de células estaminais e como a Goreti diz estas podem ser a cura de muitas doenças e um dia salvar vidas a muita gente!

(tinha um comentário maior mas o computador perdeu-o e fiquei sem cabeça para escrever tudo de novo :p)

Marta disse...

Davide,

esta questão tem a ver com sensibilidades e prende-se com um elenco de valores morais, que se pode ter ou não. Por isso, não acho nada controversa a tua opinião.
Respeito que, para ti, um embrião não mereça tutela. Respeito que penses que é mais importante prolongar a vida de um ser humano completo, em detrimento de um projecto de ser humano.
Não penso da mesma forma, mas é como já referi, tem a ver com sensibilidades.
Mas discordo totalmente do último argumento que utilizas, é que se em vida não dispusermos o contrário, de facto quando morremos os nosso orgãos podem servir para transplante (atenção, são os orgãos e não o corpo, este continua a pertencer à família!), mas tivemos essa possibilidade de escolha, ou seja, optámos.

Bruno, a tua posição é precisamente a da Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida. Heheh

JFD,

que se saiba, em Portugal pelo menos, ninguém fabrica embriões com o intuito de investigar células estaminais. O que acontece é que quando um casal procura a fertilização in vitro, sobram óvulos fecundados. Eu não me sentiria bem, se fosse um desses casais e viesse a saber que os meus óvulos fecundados se iriam desenvolver, dando origem a um embrião e que aos 15 dias de vida (sim, porque é vida, e é humana, só não é um ser completo) seria destruída. Por muito que viesse a contribuir para o avanço da ciência.
Mais ainda, quando existem células estaminais em orgãos do corpo humano ou em cordões umbilicais e que o seu potencial não está ainda devidamente explorado. Penso que o progresso da ciência em relação às celulas estaminais embrionárias pode esperar.

Goreti e Tânia, estou de acordo com vocês. E quando for mãe quero poder congelar as células do cordão umbilical do meu filho, porque quem sabe um dia poderá salvar-lhe a vida.

Agora deixo apenas dois exemplos que sustentam a minha posição:

- Realizaram-se testes em ratinhos adultos e foram tão bem sucedidos que acabaram por ser feitos em indivíduos adultos e que não representam qualquer destruição de uma vida:
1 - Foram colhidas células estaminais de medula óssea e colocadas num fígado doente, essas células comportaram-se como células do fígado, mas saudáveis e regeneraram-no;
2 - outro exemplo é o de células estaminais de medula que foram implantadas no cérebro de uma pessoa com Alzheimer, que fizeram a doença regredir no paciente.

É por estas razões que penso que as células estaminais do ser humano adulto devem ser mais exploradas, antes de se pensar em destruir embriões.

Bruno disse...

Bom, parece que está aqui uma boa altura para me distanciar da Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida e intervir ;)

Como já terei dado a entender não me parece aceitável, criar um embrião, ou seja, dar início a uma vida, apenas com a finalidade de vir a utiilizar células desse ser (ou projecto de ser, chamem-lhe o que quiserem, mas eu chamo-lhe "ser") "deitando fora o resto".

Acho que nesta situação, em coerência, iremos todos acabar por ir buscar alguns dos argumentos que utilizámos na discussão da legalização do aborto.

Não me parece lógico, nem correcto que consideremos o início da vida como algo pouco valioso. Qual é o próximo passo? Dizer que o final de vida também tem menos valor? Vamos começar a antecipar a doação de órgãos para um período anterior à morte do doador porque no caso de este já ser velho, mais vale salvar um novo?

Marta disse...

Precisamente! Estou inteiramente de acordo contigo Bruno.

Este é um tema que me apaixonou há uns anos, quando tive um Seminário sobre Bioética. Talvez porque é diferente de tudo o que tinha estudado e porque tive de apreender alguns conceitos que até à época me eram completamente estranhos e porque sempre gostei de ciências e biologia. Enough about me!

Mas é por tudo o que disseste que julgo ser um debate que diz respeito (sim!) à sociedade civil. Porque se a população portuguesa foi chamada a decidir sobre o aborto, esta questão sobre investigação em células estaminais embrionárias é mais do que pertinente, porque é mais preversa.

Não se trata de eliminar uma vida, que não se quis, mas de criar uma vida para a estudar e depois eliminar como lixo genético...

Goreti Martins disse...

"Todos nós queremos dar aos nossos filhos a melhor forma de começar a vida. Então, imagine o que será poder dar-lhe algo que lhe possa garantir uma vida com saúde e sem quaisquer tipos de objecções morais, religiosas ou éticas.

São, de facto, cerca de 5 minutos que podem valer por uma vida."

Paulo Colaço disse...

Raios!
Não estou a conseguir acompanhar o Psico!
Só em Setembro tivemos 661 comentários!!!!

Vou tentar dar a minha opinião sobre os posts, embora seja algo mais curto (aparentemente leviano).

Sobre este tema:
Nem sempre o progresso justifica a "despreocupação" para com a ética ou os valores colectivos.
Vemos a actual "guerra" contra as torres de muito alta tensão, e é um caso de total e incompreensível desprezo pela saúde alheia ou receios fundados das populações.

No caso das células estaminais, devemos deixar-nos de preocupações fúteis (não quero ofender ninguém) com vidas que não existem.

Respeitem-se as diferenças mas avance-se segundo o princípio: se não estamos a pisar ninguém, meta-se o pé com toda a firmeza!

José Pedro Salgado disse...

Voltamos à discussão sobre a protecção legal que merece uma expectativa de vida, ou a vida intra-uterina, conforme preferirem.

No caso dos embriões abortados não creio que haja grande discussão.
Qualquer que seja o regime que lhes reconheçamos, creio que a consequência deveria ser a mesma: se os ex-futuros pais autorizarem, poder-se-ia utilizar o feto para a recolha das células.

No que toca à fabricação de fetos, creio que o problema já será mais complexo.

No entanto, o que merece a protecção jurídica do embrião (sendo que aqui a doutrina diverge) é a sua possibilidade de vir a gerar um nascimento completo e com vida.

Isso não se passará nunca com os embriões assim criados.

Assim, diria que embora à primeira vista a expressão "fabricar embriões" possa chocar, dentro de uma ponderação cuidada da situação real, das suas consequências (quer passem pela utilização ou não das células) leva a que a melhor opção me pareça admitir a "fabricação de embriões".

xana disse...

Como já aqui foi dito, em nome do progresso nem tudo se justifica.

A questão da protecção da vida humana desde a concepção é uma discussão que irá durar para sempre. No entretanto, já muitos passos foram dados. A IVG é hoje uma realidade, no 1º referendo foi negada pela maioria. Assim como assim, as mentalidades vão-se renovando. O que hoje é tabu, amanhã já não o é.

Com muitas limitações, com muitas regras, com muito rigor, as células estaminais são o futuro na cura de muitas doenças, muitas delas responsáveis pela morte de milhões uma vez que são dificéis de travar. A dignidade do embrião não fica posta em causa, desde que tudo seja feito com conta, peso e medida.

Margarida Balseiro Lopes disse...

Fazendo um apanhado de tudo o que já foi dito:

Concordo inteiramente com a Xana, quando diz que em nome do progresso científico nem tudo se justifica. Mas, julgo que a perspectiva de cura de muitas doenças através da utilização deste tipo de células não viola princípios éticos. Tal como na discussão na IGV, não equiparo um projecto de vida a uma vida.

No que diz respeito aos fetos resultantes de abortos, a discussão é um pouco estéril: havendo autorização dos pais, claro que sim!

Em suma, entendo que o progresso científico imbuído em ponderação e sensatez continua a ser basilar para o Homem.

joana simões disse...

muito boa tarde! como disse no post mais recente, tenho imensa pena de não poder frequentar mais assiduamente o psico, mas infelizmente não tenho tempo, agora até deveria estar a trabalhar...

bom, quanto ao tema...

as células estaminais utilizadas em laboratória podem ser criadas apenas como fim de criar orgãos ou apenas pedaços de tecidos e implanta-los na pessoa que necessita!

os embriões.... a questão aqui colocada, talvez seja pertinente, talvez não, apenas posso dizer que de acordo com a nossa maneira de ver a vida, deveria ser proibida muita coisa, mas sera que não deveria ser proibido o aborto?


e concordo plenamente com a goretti!

beijo*